Donald Trump prometeu nesta terça-feira (7), durante a cúpula da Otan em Ancara, suspender as sanções de defesa impostas pelos Estados Unidos à Turquia e abrir caminho para a volta do país ao programa do caça F-35, do qual Ancara foi retirada após comprar o sistema russo S-400.
A declaração marca uma guinada na relação entre Washington e o governo de Recep Tayyip Erdogan. A Turquia, membro da Otan desde 1952, passou os últimos anos em uma posição ambígua dentro da aliança: estratégica para o flanco sudeste europeu, influente no Mar Negro e no Oriente Médio, mas punida pelos EUA por ter adquirido um sistema de defesa aérea de Moscou.
Trump chegou à capital turca na segunda-feira (6) e elogiou Erdogan antes do anúncio, apresentando a aproximação como parte de um esforço para reforçar a aliança atlântica. A promessa, porém, ainda não muda sozinha o regime de sanções. Para produzir efeito jurídico, a Casa Branca precisa formalizar a suspensão por meio de ato executivo ou acionar uma exceção prevista na legislação americana.
O ponto sensível é a CAATSA, lei dos EUA criada para punir transações relevantes com os setores de defesa e inteligência da Rússia, do Irã e da Coreia do Norte. Foi essa legislação que enquadrou a Turquia depois da compra do S-400 e congelou a participação turca no F-35, o principal projeto de caça furtivo de quinta geração liderado pelos americanos.
Promessa de Trump não libera automaticamente os caças
A suspensão das sanções é apenas a primeira etapa. Mesmo que Trump derrube as restrições da CAATSA, a eventual venda ou transferência de F-35 à Turquia seguirá o rito americano para grandes operações de defesa, com avaliação do governo dos EUA e possibilidade de bloqueio pelo Congresso.
Essa é a frente mais difícil para a Casa Branca. Parlamentares republicanos já demonstraram resistência à operação, em parte pelo histórico da compra do S-400 e em parte pelo receio de que tecnologia sensível do F-35 fique exposta a sistemas russos. O debate também envolve a posição da Turquia dentro da Otan e sua atuação em crises regionais.
Israel acompanha a movimentação com preocupação. Benjamin Netanyahu pediu a Trump, antes da abertura da cúpula, que contivesse a aproximação com Erdogan. Para o governo israelense, a volta da Turquia ao programa do F-35 pode alterar o equilíbrio militar no Oriente Médio, especialmente em um momento de tensão regional elevada.
Compra do S-400 tirou a Turquia do programa em 2019
A ruptura começou em julho de 2019, quando Erdogan concluiu a aquisição do S-400, sistema de defesa aérea russo considerado incompatível com a arquitetura militar da Otan. Washington argumentou que a presença do equipamento poderia comprometer dados operacionais do F-35 e expor vulnerabilidades do caça a Moscou.
A punição teve efeito político e industrial. A Turquia foi removida do consórcio internacional do F-35, perdeu contratos de fabricação de componentes do jato e viu sua Força Aérea permanecer dependente dos F-16, aeronaves de geração anterior. Para Ancara, a exclusão representou perda de prestígio dentro da aliança e atraso em seu plano de modernização militar.
O retorno ao programa, se avançar, também teria impacto comercial. O F-35 é uma das plataformas mais caras e disputadas do mercado global de defesa, e a reintegração da Turquia poderia reabrir encomendas, contratos industriais e negociações de compensação tecnológica paradas desde a crise do S-400.
Otan ganha reforço político, mas herda novo atrito
Para Trump, a reaproximação com Erdogan oferece um ganho imediato: sinaliza unidade com um aliado militarmente relevante em uma cúpula marcada por cobranças aos países europeus e por disputas sobre o custo da defesa coletiva. A Turquia tem o segundo maior efetivo militar da Otan e ocupa posição decisiva entre Europa, Cáucaso, Mar Negro e Oriente Médio.
Mas a promessa também transfere a tensão para Washington. O governo americano terá de explicar como pretende suspender sanções criadas justamente para punir a compra de armamento russo sem enfraquecer a credibilidade da CAATSA. Também terá de convencer congressistas de que a presença do S-400 turco não ameaça a segurança tecnológica do F-35.
O próximo passo concreto é a formalização da suspensão das sanções. Só depois disso a discussão sobre o retorno da Turquia ao F-35 entra na fase decisiva, com análise do governo americano, pressão do Congresso e reação dos aliados que veem a aproximação entre Trump e Erdogan como um rearranjo de poder dentro da Otan.











