A Tether, emissora do USDT e principal empresa global de stablecoins, entrou no capital da 2TM, holding controladora do Mercado Bitcoin, com um aporte de R$ 100 milhões. A operação transforma a companhia em sócia minoritária de uma das maiores plataformas brasileiras de criptoativos e reforça a disputa por stablecoins, tokenização e pagamentos digitais no país.
O investimento foi anunciado nesta terça-feira (7). As empresas confirmaram o valor do aporte, mas não divulgaram o percentual comprado pela Tether nem o valuation atual da 2TM. Sem esses dois dados, não é possível medir o tamanho exato da fatia adquirida nem saber se a nova acionista terá influência formal em decisões estratégicas, como assento em conselho, direitos de veto ou participação apenas financeira.
A entrada da Tether ocorre em um momento de reorganização do mercado brasileiro de criptoativos. O Banco Central assumiu a supervisão das prestadoras de serviços de ativos virtuais no país, enquanto o setor tenta influenciar as regras que vão enquadrar stablecoins, exchanges, custódia e operações de pagamento. Para uma emissora global de dólar digital, comprar participação em uma plataforma local reduz distância operacional em um mercado relevante da América Latina.
Parceria comercial vira participação societária
A aproximação entre Tether e Mercado Bitcoin não começou com o cheque de R$ 100 milhões. Em maio de 2026, as duas companhias firmaram uma parceria de cashback com uso do USDT, token da Tether pareado ao dólar americano, como recompensa para usuários da exchange. Dois meses depois, a relação deixou de ser apenas comercial e passou a incluir participação no capital da controladora.
O movimento dá à Tether uma vitrine local para ampliar o uso do USDT fora da negociação tradicional de criptomoedas. Stablecoins vêm ganhando espaço em remessas internacionais, liquidação entre empresas, proteção cambial informal, crédito digital e pagamentos. No Brasil, esse avanço encontra um ambiente de alto uso de Pix, bancos digitais fortes e regulação em construção — combinação que torna a disputa mais competitiva e mais sensível para autoridades monetárias.
Mercado Bitcoin busca força em tokenização e pagamentos
Para o Mercado Bitcoin, a chegada da maior emissora de stablecoins do mundo pode acelerar produtos ligados a tokenização de ativos, crédito, infraestrutura para empresas e pagamentos em cripto. A exchange já atua além da compra e venda de moedas digitais, e a associação com a Tether amplia o alcance de uma tese central do setor: usar tokens para representar ativos financeiros, recebíveis, instrumentos de crédito e saldos digitais com liquidação mais rápida.
A 2TM ganhou status de unicórnio em julho de 2021, quando recebeu aporte de US$ 200 milhões liderado pelo SoftBank e foi avaliada em US$ 2,1 bilhões. Essa avaliação, porém, pertence àquele ciclo de mercado, anterior à queda global dos ativos digitais em 2022 e ao aperto regulatório que se seguiu em várias jurisdições. O novo aporte de R$ 100 milhões não permite, por si só, atualizar a avaliação da holding.
Também não há indicação de que o SoftBank tenha feito novo investimento nesta rodada. O ponto relevante, neste anúncio, é a entrada da Tether no quadro societário da 2TM, não uma reprecificação pública da companhia nem uma nova rodada ampla com todos os investidores anteriores.
Aposta ocorre em meio à disputa por stablecoins
Stablecoins são criptoativos desenhados para manter paridade com outro ativo, normalmente o dólar. O USDT é a principal moeda desse segmento em circulação global. Na prática, esses tokens funcionam como uma ponte entre o sistema financeiro tradicional e o mercado cripto: permitem que investidores mantenham exposição ao dólar, movimentem recursos entre plataformas e liquidem transações sem passar, a cada operação, por moeda fiduciária local.
É justamente essa função de ponte que coloca as stablecoins no centro da discussão regulatória. Para o Banco Central, elas podem tocar temas como câmbio, pagamentos, prevenção à lavagem de dinheiro e estabilidade financeira. Para empresas de cripto, representam uma infraestrutura capaz de baratear transferências, ampliar produtos digitais e competir com modelos tradicionais de liquidação.
O aporte da Tether no Mercado Bitcoin sinaliza que a disputa deixa de ser apenas tecnológica e passa também pelo controle de canais de distribuição. Ao entrar na dona de uma exchange brasileira relevante, a emissora do USDT ganha presença societária em uma plataforma que já tem base local, marca conhecida e relacionamento com usuários e empresas.
O efeito imediato é estratégico: Tether e Mercado Bitcoin passam a atuar com interesses mais alinhados no Brasil. A consequência prática dependerá dos produtos que a exchange levará ao mercado a partir dessa associação — sobretudo em stablecoins, tokenização, crédito e pagamentos digitais.











