segunda-feira, julho 6
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Mundo

EUA usam ativos venezuelanos para ajuda humanitária e pressionam Brasil

· 4 min de leitura · NEXUS A.I. do PIRANOT

Pontos-chave

  • Valor corresponde a 3,75% dos US$ 8 bilhões congelados desde o governo Trump.
  • Recursos serão enviados a La Guaira, região mais atingida pelos tremores de junho.
  • Terremotos deixaram ao menos 2.595 mortos e mais de 15 mil famílias desabrigadas.
  • Itamaraty vê vácuo jurídico sobre redirecionamento de reservas de outro país.
  • Governo Lula terá de equilibrar defesa da soberania venezuelana e resposta à crise.

Os Estados Unidos vão destinar US$ 300 milhões em ajuda humanitária às vítimas dos terremotos que atingiram a Venezuela em junho, utilizando recursos de ativos venezuelanos congelados, segundo reportagem da imprensa internacional nesta segunda-feira (6). A decisão, que representa 3,75% dos US$ 8 bilhões retidos desde o governo Trump, acende um alerta no Itamaraty e reacende o debate sobre a legalidade do uso de reservas soberanas de outros países.

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O montante será direcionado para a região de La Guaira, a mais afetada pelos tremores de 7,2 e 7,5 de magnitude que deixaram ao menos 2.595 mortos e mais de 15 mil famílias desabrigadas, conforme balanço de 2 de julho. O anúncio ocorre em meio a um vácuo jurídico: não há clareza sobre a base legal que permite a Washington redirecionar ativos de um país soberano para fins de sua política externa, mesmo que humanitários.

A medida coloca o governo Lula em uma posição incômoda. O Brasil, que defende a soberania venezuelana e atua como mediador regional, enviou o ministro da Defesa a Caracas após a tragédia e mantém laços estreitos com o governo interino de Delcy Rodríguez. Agora, terá de se posicionar sobre o uso de recursos que, em tese, pertencem a um aliado histórico.

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Precedente sem base legal clara

Os ativos venezuelanos foram congelados em 2019, no governo Trump, como parte de sanções contra o regime de Nicolás Maduro. Desde então, cerca de US$ 8 bilhões permanecem sob custódia americana. A decisão de usar parte desse dinheiro para ajuda humanitária, sem aval de Caracas, não tem amparo em nenhum tratado internacional conhecido, segundo especialistas ouvidos pela imprensa internacional.

O governo dos Estados Unidos não detalhou o mecanismo jurídico que permite a transferência. A medida pode abrir precedente para que outros ativos soberanos congelados — como os da Argentina em disputas com fundos abutres ou os da Bolívia — sejam redirecionados unilateralmente. “É uma linha tênue entre assistência humanitária e confisco”, resumiu um analista.

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A Venezuela, apesar da crise, registrou uma recuperação na produção de petróleo: 150 milhões de barris foram vendidos desde a captura de Maduro, segundo dados do setor. A ajuda americana, embora bem-vinda, é vista com desconfiança por setores que temem que os recursos congelados sejam usados como moeda de troca política.

O dilema brasileiro

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido a soberania venezuelana em fóruns internacionais e manteve canais abertos com Caracas mesmo após a captura de Maduro por forças americanas em janeiro. Em 26 de junho, o PIRANOT noticiou que Lula enviou o ministro da Defesa à Venezuela para coordenar ajuda humanitária, em um gesto de solidariedade que contrasta com a postura de Washington.

Agora, o Itamaraty enfrenta um dilema: condenar o uso de ativos venezuelanos pode gerar atrito com os EUA, enquanto aceitar a medida enfraquece o discurso de defesa da soberania. Até o momento, o Ministério das Relações Exteriores não se manifestou oficialmente. A reportagem procurou a pasta, mas não obteve resposta.

Além da questão diplomática, a decisão americana pode respingar em interesses econômicos brasileiros. A Venezuela prepara uma reestruturação de dívida que pode somar US$ 240 bilhões, conforme revelou o PIRANOT em 24 de junho, e empresas brasileiras com créditos a receber acompanham o processo com apreensão. O uso de ativos congelados para outros fins pode complicar as negociações.

A comunidade internacional agora aguarda a reação de Caracas. O governo interino de Delcy Rodríguez, que assumiu com apoio de Washington, ainda não comentou a decisão. O silêncio de Brasília, por sua vez, deve durar pouco: a pressão por um posicionamento claro tende a aumentar nos próximos dias.


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