A Amazon negocia a venda de seus chips de inteligência artificial Trainium a outras empresas, em um movimento que pode transformar a AWS de grande compradora de infraestrutura de IA em concorrente direta da Nvidia no mercado mais disputado da tecnologia.
A ofensiva mira clientes corporativos que treinam modelos de IA e hoje dependem, em larga medida, das GPUs da Nvidia para operar data centers. A fabricante americana ainda parte de uma posição dominante: concentra cerca de 80% do mercado global de chips para centros de dados, justamente o segmento que sustenta a corrida por modelos generativos, assistentes corporativos e aplicações de automação.
O Trainium nasceu dentro da AWS como uma alternativa para reduzir custo e dependência em cargas pesadas de treinamento de IA. Se a Amazon levar o componente ao mercado externo, a mudança deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser comercial: a empresa tentará vender aos próprios clientes de nuvem uma peça central da infraestrutura que hoje compra, aluga e combina com chips de terceiros.
A disputa ganha peso porque a Amazon não rompe com a Nvidia — ao contrário, ainda usa os chips da rival em contratos estratégicos. Em novembro, a companhia fechou um acordo de US$ 38 bilhões com a OpenAI para fornecer acesso a servidores ao longo de sete anos, com infraestrutura apoiada em chips da Nvidia. A AWS, portanto, tenta abrir uma frente própria sem abandonar a tecnologia que sustenta parte de sua oferta atual.
Trainium vira aposta para reduzir a dependência de GPUs
A lógica da Amazon é simples: quanto maior a demanda por IA, maior a pressão sobre preço, entrega e disponibilidade de aceleradores. As GPUs da Nvidia viraram o padrão do setor, mas também se tornaram um gargalo para empresas que precisam ampliar capacidade rapidamente. Ao oferecer o Trainium como opção, a AWS tenta capturar uma fatia maior do orçamento de clientes que já compram serviços de nuvem.
O sinal mais recente de tração veio em maio, quando a Snowflake assinou um contrato de US$ 6 bilhões com a AWS para infraestrutura ligada a chips de IA. O acordo reforça a tese de que grandes clientes querem alternativas para ampliar processamento sem ficar presos a um único fornecedor de hardware.
Para investidores brasileiros expostos a tecnologia por ETFs, BDRs e fundos internacionais, a disputa importa porque mexe no principal motor de valorização das gigantes americanas: a expectativa de crescimento em inteligência artificial. A Nvidia defende uma liderança construída sobre hardware, software e ecossistema; a Amazon tenta usar a escala da nuvem para transformar chip próprio em produto de mercado.
Nvidia responde com nova geração de chips
A Nvidia também acelera. A empresa apresentou a plataforma Rubin, nova geração de chips e sistemas para IA, como parte de sua estratégia para manter vantagem técnica em data centers. O avanço reforça a pressão sobre rivais que tentam disputar preço, disponibilidade e integração com serviços de nuvem.
A Amazon ainda não anunciou contratos públicos de venda externa do Trainium, nem detalhou preços, compradores ou prazos de entrega. Enquanto esses acordos não aparecem, a Nvidia segue como referência dominante do setor. O que muda agora é que a AWS tenta deixar de ser apenas uma das maiores clientes da corrida por IA para disputar a venda da infraestrutura que alimenta essa corrida.











