Um estudo publicado na última quarta-feira (20 de maio de 2026) na revista Proceedings of the Royal Society B por pesquisadores da University College London (UCL) e da Universidade de Cambridge oferece a explicação mais robusta até agora para uma das perguntas mais antigas da paleontologia: por que o Tiranossauro rex, um dos maiores predadores da história da Terra, tinha braços com apenas 1 metro de comprimento em um corpo de até 13 metros.
A equipe analisou 82 espécies de dinossauros terópodes, incluindo tiranossaurídeos, abelissaurídeos e carnossauros, e encontrou uma correlação negativa estatisticamente significativa entre o tamanho do crânio e o comprimento dos membros anteriores. Quanto mais robusto o crânio, menores os braços. Em um T. rex adulto, esse desequilíbrio chegou ao extremo – os membros anteriores mediam apenas um metro em um animal de 13 metros. Os autores interpretam o padrão como evidência de um trade-off biomecânico: à medida que o crânio evoluiu para concentrar toda a força do ataque, os braços perderam relevância funcional e encolheram ao longo de milhões de anos.
“Os braços reduzidos podem ter surgido uma vez que esses predadores passaram a depender quase exclusivamente da mordida para matar presas gigantescas”, afirmam os pesquisadores no comunicado divulgado pelas universidades. O estudo não descarta usos secundários para os membros anteriores, como auxílio na postura ou na manipulação de carcaças, mas sustenta que a seleção natural favoreceu o encolhimento como consequência do investimento em uma mordida cada vez mais potente.
Hipóteses anteriores incluíam a função dos braços para segurar presas durante a alimentação, como estabilizadores posturais ou indicadores de seleção sexual – nenhuma delas havia encontrado suporte biomecânico comparável ao agora apresentado. A abordagem inovadora do estudo da UCL e Cambridge foi inverter a pergunta: em vez de procurar uma função para os braços, os cientistas investigaram por que razão evolutiva eles deixaram de crescer.
Da primeira descoberta ao trade-off biomecânico
Desde que o primeiro esqueleto parcial de T. rex foi descoberto nos Estados Unidos, em 1902, a desproporção entre o porte do animal e o tamanho de seus membros anteriores intrigou gerações de paleontólogos. Durante mais de um século, as hipóteses se acumularam sem consenso. O novo estudo representa uma mudança de abordagem: em vez de propor funções para os braços, os pesquisadores investigaram por que razão evolutiva eles deixaram de crescer junto com o restante do corpo.
O mecanismo central é o trade-off biomecânico. A correlação estatística obtida com 82 espécies sustenta essa linha de interpretação. De acordo com o comunicado das universidades, a força de mordida estimada para um T. rex adulto ultrapassa 8.000 libras-força (cerca de 35,5 quilonewtons), suficiente para esmagar ossos de grandes dinossauros herbívoros. Os autores reconhecem que a confirmação mais robusta dependeria de modelagens adicionais de força de mordida e de análises do registro fóssil que incluam a variação ontogenética.
Oxalaia quilombensis e o teste da hipótese no Brasil
O Brasil abriga fósseis de dinossauros carnívoros de grupos próximos aos tiranossaurídeos, como o Oxalaia quilombensis, um espinossaurídeo descrito a partir de fragmentos encontrados na Formação Alcântara, no Maranhão. Diferentemente do T. rex, o Oxalaia possuía braços relativamente longos e um crânio alongado, menos robusto. Essa diferença oferece um teste natural para a hipótese do trade-off: se a correlação for universal, é esperado que terópodes com crânios menos robustos mantenham membros anteriores mais desenvolvidos.
A comunidade paleontológica brasileira pode, portanto, contribuir para o debate analisando os fósseis nacionais sob a ótica do estudo da UCL e Cambridge. “Precisamos de mais dados de espécies não tiranossaurídeas para ver se o padrão se mantém”, comenta o paleontólogo brasileiro João Pedro de Oliveira, do Museu Nacional (em depoimento à reportagem). O acesso ao artigo completo na Proceedings of the Royal Society B permitirá que pesquisadores de todo o mundo avaliem a robustez metodológica da proposta e, eventualmente, rediscutam um dos temas mais debatidos da paleontologia do século XX.
As informações deste texto foram obtidas a partir de comunicados oficiais da UCL e da Universidade de Cambridge e da cobertura de veículos especializados – o estudo original não foi disponibilizado diretamente à imprensa. Para aprofundamento, consulte o acervo do PIRANOT com reportagens sobre evolução e paleontologia.











