O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para a indústria tecnológica, mas carece da tecnologia necessária para refiná-los. Enquanto isso, Estados Unidos e China travam uma disputa silenciosa pelo controle dessa cadeia, que abastece desde carros elétricos até sistemas de defesa. O país emerge como peça estratégica nesse tabuleiro, mas ainda não consegue transformar potencial geológico em vantagem industrial.
Dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) indicam que o Brasil detém cerca de 21 milhões de toneladas desses minerais, atrás apenas da China. As principais jazidas estão em Araxá (MG), Catalão (GO) e no complexo alcalino de Poços de Caldas (MG), além de ocorrências no Amazonas e em Rondônia. No entanto, o país exporta minério bruto ou concentrado e importa óxidos e metais processados a preços muito superiores.
O domínio chinês sobre o refino é quase absoluto. Segundo o USGS, a China controla cerca de 60% da mineração e mais de 85% do processamento global desses elementos. Esse monopólio permite ao país asiático ditar preços e restringir exportações em momentos de tensão, como ocorreu em 2010, quando suspendeu embarques para o Japão. A dependência externa torna o Brasil vulnerável em um setor estratégico para a transição energética e a indústria de defesa.
Obstáculos tecnológicos para o refino nacional
O Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), aponta que o país não possui plantas industriais para as etapas de separação e refino, que exigem processos químicos complexos e caros. ‘O desafio brasileiro é deixar de ser apenas um fornecedor de matéria-prima e tornar-se uma potência tecnológica’, afirma Ysrael Marrero Vera, pesquisador do CETEM.
A separação dos 17 elementos do grupo é um dos maiores gargalos técnicos. ‘Esses elementos funcionam como as vitaminas da indústria tecnológica, essenciais para fabricar desde motores potentes de carros elétricos até o sistema que faz o seu celular vibrar’, resume o geólogo Alexandre Magno Rocha, professor do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN). O problema é que, na natureza, eles ocorrem associados uns aos outros, e separá-los exige conhecimento químico avançado e altos investimentos.
Atualmente, o CETEM desenvolve pesquisas para viabilizar a produção nacional de ímãs de neodímio e outros insumos, mas os projetos ainda estão em escala piloto. Enquanto isso, o Brasil continua exportando matéria-prima bruta para países que dominam a tecnologia — principalmente a China — e depois recompra os produtos manufaturados com valor agregado muito maior.
Disputa geopolítica entre EUA e China pelo controle da cadeia
A disputa global se intensificou com o domínio chinês sobre o processamento. O monopólio de Pequim preocupa governos ocidentais, especialmente os Estados Unidos, que buscam alternativas para reduzir a dependência. Em 2023, o Departamento de Defesa norte-americano destinou US$ 35 milhões à MP Materials, empresa que opera a mina de Mountain Pass, na Califórnia — a única instalação integrada de processamento de terras raras fora da China.
A Casa Branca também firmou acordos com Austrália e Canadá para diversificar o fornecimento. O Brasil aparece como um parceiro estratégico natural, devido à dimensão de suas reservas. A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos Estados Unidos, em novembro de 2023, incluiu o tema na pauta bilateral, conforme divulgado pelo Palácio do Planalto, sinalizando o interesse norte-americano em parcerias para processamento em solo brasileiro.
O geólogo Alexandre Magno Rocha, do IFRN, explica que a complexidade técnica torna a cooperação internacional essencial: ‘A separação deles é um dos maiores desafios da engenharia moderna’. Qualquer acordo que envolva transferência de tecnologia pode destravar o potencial brasileiro, mas também acende alertas sobre soberania nacional e riscos ambientais.
Encontro Lula-Trump e o debate legislativo sobre terras raras
O encontro entre os presidentes Lula e Donald Trump em 7 de novembro coloca as terras raras no centro da agenda bilateral. Segundo dados oficiais do Senado, tramitam no Legislativo propostas que alteram as regras para exploração desses minerais, considerados essenciais para a transição energética e a indústria de defesa. O interesse estrangeiro acende o debate sobre soberania: parlamentares pressionam por salvaguardas contra a entrega de recursos estratégicos sem contrapartidas industriais.
A China domina o processamento global, e os EUA buscam diversificar fornecedores. O Brasil, com a segunda maior reserva mundial, carece de tecnologia para refinar os 17 elementos do grupo, como neodímio e disprósio. ‘O desafio brasileiro é deixar de ser apenas um fornecedor de matéria-prima e tornar-se uma potência tecnológica’, reforça Ysrael Marrero Vera, do CETEM.
A reunião Lula-Trump pode destravar investimentos em plantas de separação e produção de ímãs no país. No entanto, o custo ambiental da extração e a complexidade técnica exigem que qualquer acordo inclua transferência de conhecimento. O equilíbrio entre atrair capital externo e proteger a autonomia nacional é o que está em jogo tanto na conversa presidencial quanto nos projetos de lei em tramitação no Congresso.











