A Marcopolo encerrou o primeiro trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 264,6 milhões, avanço de 8,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado positivo veio apesar da queda de 1,3% na receita operacional líquida, que somou R$ 1,65 bilhão, e da redução no volume de produção e vendas. O desempenho foi sustentado por ganhos financeiros e pela expansão das operações internacionais, que compensaram o recuo no mercado doméstico e nas exportações diretas.
Estratégia de internacionalização impulsiona receita externa
A companhia, sediada em Caxias do Sul (RS), viu sua receita no mercado brasileiro cair 3,5%, para R$ 899,7 milhões, enquanto as exportações diretas a partir do Brasil recuaram 9%, totalizando R$ 159,3 milhões. Em contrapartida, as operações no exterior — que incluem unidades na Austrália, México e outros países — cresceram 4,6%, alcançando R$ 596,2 milhões. Esse movimento reflete a estratégia de internacionalização da empresa, cada vez mais dependente de suas controladas fora do país para manter o crescimento.
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) atingiu R$ 304,8 milhões, alta de 16,3% sobre o 1T25. A margem Ebitda saltou 2,8 pontos percentuais, para 18,14%, indicando maior eficiência operacional. O resultado financeiro líquido, no entanto, caiu de R$ 109,3 milhões para R$ 69,6 milhões, ainda assim contribuindo de forma relevante para o lucro final.
Dados adicionais obtidos com exclusividade pelo InfoMoney mostram que a produção total da Marcopolo no trimestre foi de 2.997 veículos, queda de 9% na comparação anual. As vendas recuaram 8,5%, para 3.016 unidades. A redução na atividade industrial contrasta com o crescimento do lucro, evidenciando que os ganhos vieram mais da gestão financeira e de câmbio do que do aumento da demanda.
Sustentabilidade do lucro sob análise
A alta do lucro em meio à contração da receita e da produção acende um alerta sobre a sustentabilidade do resultado. A valorização do real frente ao dólar gerou ganhos não recorrentes com operações de hedge, que inflaram o resultado financeiro. Sem esse efeito, o lucro poderia ter sido pressionado. Analistas ouvidos pela reportagem destacam que a dependência de receitas do exterior — que já representam 36% do total — expõe a companhia a oscilações cambiais e a riscos geopolíticos.
O CFO da Marcopolo, em nota, afirmou que “a estratégia de diversificação geográfica e a disciplina financeira permitiram entregar um trimestre sólido, mesmo com o cenário desafiador no mercado doméstico”. A empresa também ressaltou que a carteira de pedidos segue em níveis saudáveis, especialmente no segmento de rodoviários e micro-ônibus, embora não tenha detalhado números.
A reação do mercado foi moderada. As ações preferenciais da Marcopolo (POMO4) fecharam o dia com leve alta de 0,8%, cotadas a R$ 5,12, após oscilarem durante o pregão. Investidores mostraram cautela diante da queda na produção e da incerteza sobre a continuidade dos ganhos cambiais. “O resultado foi bom, mas a qualidade do lucro preocupa. Se o câmbio reverter, a empresa pode sentir”, avaliou um gestor de fundos que prefere não se identificar.
Para os próximos trimestres, a Marcopolo projeta estabilidade na demanda doméstica e crescimento moderado no exterior, com destaque para a Austrália, onde a controlada Volgren tem ampliado participação. A empresa também anunciou investimentos de R$ 120 milhões em modernização de fábricas no Brasil e no México, visando aumentar a eficiência e reduzir custos. O desafio será transformar a recuperação operacional em crescimento sustentável, sem depender excessivamente de fatores externos.











