Olá. Há duas semanas, quando estreiei neste espaço, falei sobre um contraste que me parecia central para entender a nossa realidade: de um lado, o debate público, as ideias, as interpretações; de outro, a vida concreta, que segue impondo urgências, limites e fatos que não podem ser ignorados. De lá para cá, esse contraste não apenas permaneceu como ganhou novos contornos.
A quinzena no PIRANOT mostrou, mais uma vez, como um espaço plural de opinião pode ampliar o olhar sobre o tempo em que vivemos. E, nesta nova semana, chamou atenção o fato de que vários colunistas, por caminhos muito diferentes, acabaram se aproximando de um mesmo tema: o desgaste do ambiente público, especialmente nas redes sociais, e os efeitos disso sobre a forma como pensamos, reagimos e convivemos.
Dr. Sérgio Pacheco, vice-prefeito, médico cardiologista e ex-secretário municipal de Saúde, foi talvez quem formulou essa inquietação de maneira mais direta. Em “A alquimia do ódio nas redes”, escreveu uma frase que resume com precisão a assimetria que marca a experiência pública no ambiente digital:
“Os xingamentos choveram publicamente, enquanto os elogios chegavam baixinho.”
Há muito contido nessa observação. Ela fala do volume da agressividade, da discrição do reconhecimento e do modo como o espaço público, cada vez mais atravessado pela lógica das redes, passou a premiar a reação instantânea, o julgamento apressado e o confronto. Não se trata apenas de um comentário sobre internet. Trata-se de uma leitura do tempo.
Danilo Olegário, consultor de negócios, especialista em liderança e fundador da RHOER, tocou num problema próximo, embora por outro ângulo. Em “A epidemia da distração”, lançou uma pergunta provocadora:
“Estamos ficando burros ou só cansados de pensar?”
A força da frase está menos na provocação em si do que no mal-estar que ela revela. Danilo chama atenção para uma dificuldade muito contemporânea: a incapacidade crescente de sustentar a atenção, concluir uma leitura, acompanhar uma linha de raciocínio até o fim. Num ambiente em que tudo concorre por segundos do nosso foco, pensar com profundidade se tornou quase um ato de resistência. E talvez isso ajude a explicar, ao menos em parte, por que tantos debates hoje se esgotam antes mesmo de amadurecer.
Clovis Vaz Filho, consultor político com 35 anos de atuação em campanhas eleitorais e ex-secretário municipal de Governo e de Saúde, ampliou essa mesma reflexão ao recorrer à mitologia. Ao trazer Eco e Narciso para o centro do seu argumento, ofereceu uma chave simbólica muito precisa para pensar a vida pública contemporânea:
“Assim como Narciso, há o risco de se apegar a uma versão idealizada de si mesmo.”
A observação vale para a política, para as redes e também para a forma como passamos a nos apresentar e a nos enxergar no espaço público. Quando a autoimagem se sobrepõe ao diálogo e a repetição substitui a escuta, a conversa perde densidade e o debate se empobrece.
O interessante é que esses três textos não formam um bloco artificial. Eles dialogam porque partem de inquietações reais, formuladas a partir de repertórios, estilos e experiências muito diferentes. E talvez esse tenha sido um dos pontos mais ricos da semana no PIRANOT: não houve uma tese única repetida em série, mas vozes distintas que, espontaneamente, foram iluminando um mesmo clima de época.
Ao lado dessas leituras mais voltadas ao comportamento e ao ambiente público, a quinzena também trouxe colunas que deslocaram o foco para propostas, políticas e temas estruturantes. E esse movimento ajuda a reforçar justamente o contraste positivo que venho observando aqui: enquanto a realidade segue dura e complexa, o debate no portal não se limita ao ruído, nem se rende à superficialidade.
Outras colunas
A professora Bebel, em sua coluna, levou ao leitor uma agenda de forte densidade política e social. Falou do Plano Nacional de Educação, com suas 73 metas e 372 estratégias, do Sistema Nacional de Educação, dos R$ 20 bilhões do Fundo Social destinados ao Minha Casa, Minha Vida e da proposta de superação da escala 6×1. São temas que naturalmente despertam posições firmes, mas que também exigem leitura, contexto e disposição para o debate de mérito. Num ambiente marcado por reações rápidas e polarização, há valor em textos que recolocam a discussão no campo das ideias e das prioridades públicas.
Alex Madureira, deputado estadual por São Paulo, nascido em Ártemis, trouxe um exemplo de pauta diretamente conectada à realidade regional ao destacar R$ 500 mil para a qualificação de mão de obra jovem, com articulação entre sindicato, Senai, Prefeitura e Governo do Estado. É uma abordagem que aproxima o leitor de algo palpável, executável e mensurável, mostrando que o espaço de opinião também pode servir para apresentar iniciativas com potencial de impacto concreto.
Vinicius Marchese, presidente licenciado do Confea, foi na mesma direção ao apresentar o InfraBR, plataforma voltada ao monitoramento da infraestrutura nacional com base em dados estruturados. Ao fazer isso, recolocou em evidência um ponto essencial: desenvolvimento não é abstração, mas resultado de planejamento, investimento, capacidade técnica e visão de longo prazo. Em um país que tantas vezes discute crise sem discutir estrutura, esse tipo de contribuição ajuda a reorganizar o debate.
Barjas Negri, ex-prefeito de Piracicaba por três mandatos e ex-ministro da Saúde, também trouxe uma combinação significativa ao reunir em uma mesma reflexão dois temas inseparáveis da vida cotidiana: renda e saúde. Ao tratar do alívio no imposto de renda para trabalhadores da economia formal de Piracicaba e região e, ao mesmo tempo, voltar a defender a ampliação do Hospital Regional, lembrou que qualidade de vida não se mede por uma única variável. Economia, atendimento público e bem-estar caminham juntos.
Se parte da semana foi marcada por colunas que refletiram sobre o desgaste do debate público, outra parte mostrou que esse mesmo debate pode continuar produtivo quando se ancora em propostas, dados, políticas e prioridades concretas. Esse equilíbrio, a meu ver, diz muito sobre a maturidade do espaço que o PIRANOT vem consolidando.
E houve ainda outra camada importante nessa quinzena: a ampliação do olhar para temas que escapam ao atrito mais imediato da política, mas que também ajudam a compreender a cidade e a região.
Gustavo Alves de Oliveira estreou com uma coluna sobre o irerê, o tuiuiú e o savacu, deslocando o foco para a fauna e para a complexidade ambiental do nosso território. Em um dos trechos mais bonitos da semana, escreveu:
“Cada espécie revela um pedaço da complexidade ambiental da nossa região.”
A frase vale por si. Em meio à velocidade do noticiário e ao desgaste do debate digital, há algo de muito valioso em textos que nos devolvem a paisagem, a biodiversidade e a dimensão silenciosa da vida ao redor. Também aí existe leitura de cidade. Também aí existe interesse público.
Fernanda Maestro, por sua vez, levou o leitor para o universo do cinema, do streaming e da indústria audiovisual. E fez isso de uma forma igualmente relevante: tratando cultura não como assunto lateral, mas como setor produtivo, campo de trabalho, circulação de renda e possibilidade de desenvolvimento. Num momento em que tantas vezes se separa artificialmente cultura de economia, esse olhar ajuda a recompor uma visão mais ampla da realidade.
Essas contribuições, embora diferentes entre si, cumprem uma função importante dentro do conjunto. Elas lembram que a cidade não é feita apenas de tensão, disputa e urgência. Ela também é feita de território, natureza, trabalho, imaginação e pertencimento. E um portal cresce de verdade quando consegue abrigar essa diversidade de leituras sem perder unidade editorial.
Talvez por isso o fechamento da quinzena seja tão eloquente. A entrevista com Romero Rocca recoloca tudo em perspectiva ao revelar que Charqueada, a cerca de 40 minutos de Piracicaba, precisou captar água de São Pedro porque o rio que abastecia a cidade secou.
É o tipo de fato que não precisa de ênfase retórica. Ele se impõe sozinho. E é justamente aí que o contraste reaparece com mais clareza. Enquanto o PIRANOT oferecia ao leitor uma semana de colunas capazes de pensar o ódio nas redes, a distração contemporânea, a política, a infraestrutura, a cultura e o território, a realidade regional nos lembrava de algo elementar e incontornável: o mundo concreto continua exigindo atenção.
Mas esse contraste, como venho dizendo desde a estreia, não é um problema em si. Ao contrário. Ele é o que dá sentido ao bom debate. A função de um espaço como este não é competir com a realidade, nem se fechar numa discussão autorreferente. É oferecer elementos para compreendê-la melhor. E, nesta quinzena, o PIRANOT fez exatamente isso: reuniu colunistas que interpretaram o mal-estar do presente, outros que trouxeram propostas e prioridades, e outros que ampliaram nosso olhar sobre a cidade e a região.
No fim, o saldo que fica é o de um debate que não se empobreceu diante da pressa do tempo. Ganhou densidade. Ganhou repertório. Ganhou amplitude. E isso, num ambiente público tantas vezes reduzido ao ruído, já é um dado relevante.
Eu sou Júnior Cardoso. Volto em duas semanas.
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