Romero Rocca atende ao PIRANOT entre uma sessão na Câmara e um compromisso na rua. Fala rápido, olha firme, faz questão de citar número de processo. Aos 37 anos, engenheiro civil, vereador em Charqueada pelo PV, ele vive a rotina de dois personagens sobrepostos: o fiscalizador incômodo que transformou o Tribunal de Contas em arquivo pessoal — e o sobrevivente de um acidente de moto, em novembro de 2024, que, segundo ele, fez passar um filme inteiro diante dos olhos antes de voltar à vida pública. Em mais de uma hora de conversa, Rocca tratou de taxa de limpeza, crise hídrica, empréstimos municipais, ambições futuras e da fronteira estreita entre a coragem e o medo.
A abertura é pelo núcleo. Desde que tomou posse, Rocca mira três alvos: obras, terceirizações e cobranças tributárias. Quem acompanha a Câmara de Charqueada reconhece o método — pedido de informação, documento no protocolo, denúncia formalizada. O atrito com o Executivo é rotina.

A marca da fiscalização
Quais têm sido suas principais prioridades como vereador em Charqueada?
Romero Rocca — “Fiscalizar o Executivo nas obras executadas em questões de aditamentos, qualidade e valores, como já identificamos o julgamento desfavorável do TCE sobre a obra do CAPEC. Estamos a fundo para identificar irregularidades com o dinheiro público, ainda mais sendo uma obra para as pessoas especiais. Também fiscalizar as terceirizações muito questionadas sobre valores e eficiência na prestação de serviço, como também trazer recursos e equipamentos através do governo federal e estadual.”
Ele cita o CAPEC sem pestanejar — a obra voltada ao atendimento de pessoas com deficiência que, segundo o vereador, já teria acumulado parecer desfavorável no Tribunal de Contas. É a carta que abre toda conversa com ele.
Quais projetos de sua autoria o senhor considera mais relevantes até o momento?
Romero Rocca — “Projeto de decreto legislativo que visa reaver o aumento abusivo da taxa de limpeza atrelado ao IPTU, que identificamos como inconstitucional.”
“A taxa de limpeza atrelada ao IPTU é inconstitucional.”
Romero Rocca
A frase é curta e tem endereço. Se o decreto legislativo avançar, o contribuinte de Charqueada pode virar personagem central de uma disputa jurídica com repercussão além dos limites da cidade. Rocca sabe disso — e não evita o assunto.
O tabuleiro político local
Como o senhor avalia o atual momento político do município?
Romero Rocca — “Vejo como um momento muito positivo para quem está fazendo oposição ao governo, que enfrenta graves denúncias e processos no âmbito do TCE, no MP e no TSE. Algo que a população não tinha conhecimento e hoje está sendo elucidado, graças ao incansável trabalho da oposição de trazer a verdade para a população, que hoje está cada vez mais encorajada e maior, para lutar pelos seus direitos.”
TCE, MP, TSE. Rocca não economiza siglas. A leitura é de quem acredita que o governo municipal entra em 2026 com mais processos do que entregas — e que essa diferença aparecerá nas urnas.
De que forma sua formação como engenheiro contribui para sua atuação no Legislativo?
Romero Rocca — “Conhecimento técnico para poder contribuir nas fiscalizações e na elaboração de projetos que visam ao desenvolvimento do município e à melhoria da qualidade de vida da população.”
A engenharia é o diferencial competitivo. Em plenário, enquanto colegas discutem palavras, Rocca costuma discutir memorial descritivo, planilha de custos, cronograma físico-financeiro. É uma vantagem que poucos vereadores de cidade pequena conseguem explorar.
Água, obras e a pauta verde
Aqui a conversa muda de temperatura. Charqueada tem um problema hídrico sério e pouco falado: a Sabesp precisou recorrer a um rio de outro município para manter o abastecimento. O vereador do Partido Verde passa a falar na primeira pessoa.
Há projetos voltados à infraestrutura urbana que o senhor pretende implementar ou ampliar?
Romero Rocca — “Como vereador, o projeto é lutar para que o Parque Industrial saia do papel. Através de bons contatos, tínhamos oportunidade de contribuir; infelizmente não liberam para nós o projeto para abrirmos as portas no governo federal. Por isso fizeram empréstimo de 15 milhões para isso.”
Quinze milhões. É o número que fica no ar. Segundo Rocca, o empréstimo contraído pela prefeitura para viabilizar o Parque Industrial poderia ter sido desnecessário caso a oposição tivesse sido ouvida nos canais em Brasília. É uma acusação forte — e ele faz questão de deixar registrada.
Como representante do Partido Verde, quais pautas ambientais o senhor tem defendido em Charqueada?
Romero Rocca — “A revitalização dos mananciais, pauta que defendo desde o meu primeiro mandato, pois Charqueada sofre graves problemas nesse quesito. Inclusive, atualmente a Sabesp teve que criar uma captação através do rio Araquá, que não pertence a Charqueada e sim a São Pedro, pois, devido à baixa do rio Água Branca, não teve outra solução para o momento.”
“A Sabesp teve que captar água do Araquá, que não pertence a Charqueada, e sim a São Pedro.”
Romero Rocca
A informação, se confirmada nos termos que ele descreve, é grave. Uma cidade com infraestrutura hídrica comprometida a ponto de depender de captação em município vizinho vira candidata natural a racionamento — e a crise política logo depois. Rocca levanta a bandeira. O poder público precisará responder.
Existe algum projeto específico voltado à sustentabilidade ou preservação ambiental no município?
Romero Rocca — “Existe um trabalho forte da equipe da cooperativa de reciclagem, que contribui muito na preservação evitando materiais nos rios e nascentes.”
As ruas e a cidade real
A parte menos ideológica da conversa é também a mais concreta. O que chega a ele, de verdade, no celular e nas esquinas? A resposta é seca — e universal em qualquer cidade média brasileira.
Quais são as principais demandas que o senhor tem recebido da população?
Romero Rocca — “Falta de emprego, falta de remédio, demora na saúde e dificuldade dos moradores em pagar tributos.”
Como é feito o diálogo com os moradores para entender as necessidades da cidade?
Romero Rocca — “Mensagens e, pessoalmente, nas ruas.”
Quais são os maiores desafios enfrentados atualmente por Charqueada?
Romero Rocca — “Falta de emprego, saúde de qualidade e falta de incentivo aos jovens para qualificação profissional e universitária.”
2028 no horizonte
Em 2020, Rocca disputou a Prefeitura e saiu com 2.478 votos. Não venceu, mas consolidou nome. Agora, em mandato legislativo, evita cravar candidatura futura. Mas também não nega. A resposta é política — e treinada.
O senhor tem planos de disputar outros cargos públicos no futuro?
Romero Rocca — “Sou um servidor da população de Charqueada. Estou sempre à disposição para servir à missão naquilo que o povo entender necessário.”
Tradução: nada está descartado. Quem conhece o vereador diz que 2028 é, sim, um horizonte ativo. A equipe tem feito o trabalho de base que costuma preceder uma candidatura majoritária — presença em bairros, relação com entidades, diálogo com lideranças da região metropolitana.
O acidente que mudou tudo

O tom muda. Do vereador-fiscalizador sobra pouco. Quem aparece é o homem que, em novembro de 2024, quase não voltou para casa. Ele para. Respira. E reconstrói o instante.
No ano passado, o senhor sofreu um acidente grave de moto na região. Chegou a passar um filme na cabeça sobre o futuro, a família, ou não lembra do momento da colisão?
Romero Rocca — “Sim, claro! Passou um filme sobre minha vida, minha família, amigos, e tudo que poderia ficar para trás. Hoje, bem, agradeço a Deus pela oportunidade de estar aqui seguindo os caminhos e lutando pela nossa missão, que ainda não terminou na Terra.”
“Passou um filme sobre minha vida, minha família, amigos, e tudo que poderia ficar para trás.”
Romero Rocca
É a única parte da entrevista em que a voz falha. Quem o viu nos meses seguintes ao acidente fala de um político mais introspectivo, com pauta reorganizada. A política, daqui para frente, ganhou outra urgência. Não é pouca coisa.
A mensagem
Que mensagem o senhor deixa para a população sobre seu mandato e os próximos anos?
Romero Rocca — “A mensagem que eu deixo à população é que aqui tem um grande parceiro, que sempre defenderá os interesses do povo. Que este filho seu não foge à luta, pois a coragem sempre vence o medo. O futuro estamos construindo junto com as pessoas de bem que querem o melhor da nossa cidade e da nossa população. Cada dia estou ainda mais forte para fazer o melhor de mim em defesa do povo charqueadense.”
“A coragem sempre vence o medo.”
Romero Rocca
Análise do editorA entrevista com Romero Rocca revela um quadro em construção — e é exatamente esse o valor dela. O vereador demonstra domínio técnico incomum para o legislativo de uma cidade do porte de Charqueada, e transforma esse conhecimento em denúncia documentada. A tese sobre a inconstitucionalidade da taxa de limpeza atrelada ao IPTU, se prosperar, pode se tornar uma contribuição jurídica relevante para além dos limites municipais. Já o alerta sobre a crise hídrica — com a Sabesp recorrendo a captação em município vizinho — é o tipo de informação que, se não fosse trazido por um representante atento, demoraria muito mais para chegar ao debate público.
A pauta ambiental ainda caminha para encontrar a escala do discurso, e é natural que isso aconteça: projetos estruturantes de revitalização de mananciais dependem de articulação com o governo estadual e federal, território onde Rocca sinaliza que quer atuar. O acidente de novembro de 2024 adiciona uma dimensão que muitos políticos levam uma vida inteira para encontrar — a da perspectiva. Quem passa pelo que ele passou costuma voltar à arena pública com outra noção de tempo e de prioridade.
A frase que fecha a conversa — “a coragem sempre vence o medo” — não é improviso. É posição. Rocca deixa Charqueada em compasso de observação: o que ele entregar nos próximos dois anos dirá muito sobre o tamanho do voo que poderá alçar em 2028. Por ora, o que se vê é um mandato com musculatura técnica, estômago para o confronto e disposição para o trabalho de base. É uma combinação que, em política, costuma durar.
