A inadimplência nas operações de crédito com recursos livres chegou a 6,2% em maio e atingiu o maior nível da série histórica iniciada pelo Banco Central em março de 2011. O avanço, de 6,1% em abril para 6,2% no mês seguinte, mostra que o alívio prometido por renegociações de dívida ainda não mudou o quadro central do mercado: o crédito sem garantia segue caro, restrito e mais arriscado para bancos e consumidores.
O aperto aparece com mais força nas famílias. Entre pessoas físicas, o calote no crédito livre chegou a 7,6%. No crédito pessoal sem garantia, modalidade usada por quem não oferece imóvel, veículo ou desconto direto em folha, a inadimplência alcançou 14,2% — quase o triplo da média geral do sistema financeiro, que subiu para 4,7% e também renovou recorde.
O resultado expõe uma combinação difícil: renda comprometida, juros altos e pouca margem para tomar dinheiro novo sem oferecer uma garantia. Com a Selic em 14,25% ao ano, o custo das linhas livres continua elevado. O crédito pessoal sem garantia cobra juros médios de 142,7% ao ano. No consignado privado, em que o pagamento é descontado diretamente da folha, a taxa média é bem menor, de 54,1% ao ano.
Garantia vira saída para fugir dos juros mais altos
A diferença de custo ajuda a explicar por que empréstimos com garantia de veículos e imóveis ganham espaço. Para o banco, a garantia reduz o risco da operação. Para o consumidor, ela pode significar uma taxa menor e prazo maior. O problema é que a troca não elimina o risco: em caso de atraso persistente, o bem usado como garantia pode ser executado.
O estoque total de crédito no país soma R$ 7,3 trilhões. Dentro desse volume, as linhas garantidas tendem a avançar justamente quando o crédito livre fica mais seletivo. A inadimplência no financiamento de veículos, por exemplo, ficou em 6,5% em maio, abaixo do calote no crédito livre para pessoas físicas, mas ainda em patamar relevante para uma modalidade atrelada a um bem.
Desenrola não muda o cenário de imediato
O recorde ocorre apesar do Desenrola, programa federal de renegociação de dívidas. Esse tipo de medida pode aliviar parcelas, alongar prazos e retirar consumidores de cadastros negativos, mas seus efeitos sobre a inadimplência bancária costumam aparecer com atraso. Em maio, os dados ainda apontaram deterioração, não virada.
Na prática, o consumidor endividado enfrenta uma escolha cada vez mais dura. Se busca crédito sem garantia, encontra taxas que passam de 100% ao ano nas linhas mais caras. Se oferece um veículo ou imóvel para baratear a operação, reduz o custo financeiro, mas transforma um atraso em ameaça direta ao patrimônio.
O próximo teste será a evolução dos indicadores nos meses seguintes. Se a inadimplência parar de subir, o Desenrola e a migração para linhas com garantia poderão dar algum fôlego ao mercado. Se o calote continuar avançando, bancos tendem a restringir ainda mais o crédito livre — e a exigir garantias de um número maior de clientes.











