Após o corte de 0,25 ponto percentual decidido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em junho, a taxa Selic permanece em 14,25% ao ano, enquanto o juro médio cobrado de pessoas físicas no país segue em 56,7% ao ano, segundo as Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central.
O crédito total no Brasil atingiu R$ 6 trilhões, mas a inadimplência das famílias subiu para 4,7% em maio, o maior patamar em 15 anos. Esse cenário pressiona os bancos a manter spreads elevados, o que impede a redução do custo final ao consumidor, mesmo com a Selic em trajetória de queda gradual.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta semana que os juros altos são o principal entrave ao crescimento econômico e pressionam a dívida pública. “A taxa de juros elevada trava a economia e dificulta a retomada do investimento”, disse Durigan. A declaração acirra o atrito entre a equipe econômica e o Banco Central, que justifica a Selic elevada pela necessidade de conter pressões inflacionárias.
Spread bancário e inadimplência mantêm juro elevado
O juro médio de 56,7% ao ano para pessoas físicas reflete não apenas a Selic, mas também o spread bancário — diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa cobrada dos clientes. Esse spread é influenciado pelo risco de crédito, que aumentou com a inadimplência em alta. Em maio, 4,7% das operações de crédito estavam em atraso, ante 4,6% em abril, conforme os dados do BC.
Como mostrou o PIRANOT em 3 de julho, o juro ao consumidor supera 50% ao ano desde 2025, sustentado pelo spread e pela inadimplência. A taxa básica, que serve de referência para os bancos, teve um corte modesto em junho, mas o efeito sobre o crédito ao consumidor é lento e limitado pela percepção de risco.
O Banco Central não detalha a velocidade de repasse da Selic para o spread bancário, o que dificulta prever quando o consumidor sentirá alívio. A divergência entre a taxa média divulgada e as taxas efetivas praticadas por cada banco também torna o cenário incerto.
Impacto no consumo e na dívida pública
O crédito caro reduz a capacidade de consumo das famílias e o investimento das empresas. O mercado de crédito total de R$ 6 trilhões, embora elevado, é composto em grande parte por operações de curto prazo e juros altos, o que compromete a renda disponível. A inadimplência recorde indica que muitas famílias já estão com dificuldades para honrar dívidas.
Para o governo, os juros elevados encarecem o serviço da dívida pública. Durigan alertou que a Selic atual pressiona as contas públicas, pois cada ponto percentual da taxa básica representa um custo adicional bilionário para o Tesouro Nacional. A dívida bruta do governo geral fechou 2025 em 78,5% do PIB, e a manutenção dos juros altos dificulta a trajetória de estabilização.
Próximos passos: Copom e pressão fiscal
A próxima reunião do Copom está prevista para agosto, e o mercado projeta novo corte de 0,25 ponto, mas a decisão dependerá da evolução da inflação e do cenário externo. O Banco Central já sinalizou cautela, citando a guerra no Irã e a alta do petróleo como riscos para os preços.
Enquanto isso, a equipe econômica tenta aprovar medidas de ajuste fiscal para reduzir a pressão sobre a dívida e abrir espaço para uma queda mais rápida dos juros. A convergência entre as políticas fiscal e monetária segue como o principal desafio para o segundo semestre de 2026.











