O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (10) que o Brasil “mudará a história” na exploração de terras raras e minerais críticos, e mandou um recado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: “pode começar a ficar preocupado” com a capacidade brasileira no setor.
A declaração, feita em reunião no Palácio do Planalto com ministros e especialistas, sinaliza uma guinada na política para esses insumos essenciais à transição energética e à indústria de tecnologia. Lula descartou que o país se limite a exportar matéria-prima e defendeu que o Brasil se torne “exportador de inteligência”. “Nós não queremos ser vendedores de matéria-prima, nós queremos ser exportadores de inteligência, de conhecimento”, disse, segundo o Valor.
Apesar do tom ambicioso, o governo não detalhou como pretende superar a dependência tecnológica da China, que hoje controla mais de 70% da extração e 90% do refino global desses minerais. O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais, mas carece de capacidade industrial para separar e processar os elementos.
Monopólio chinês e a corrida global
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados em produtos de alta tecnologia, como veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones e equipamentos de defesa. A China historicamente domina a cadeia de suprimentos, desde a mineração até a produção de imãs e componentes. Essa concentração gerou preocupação em potências ocidentais, que temem vulnerabilidade estratégica.
O Brasil, com a segunda maior reserva mundial, segundo estimativas do setor, é visto como um potencial fornecedor alternativo. No entanto, a etapa de refino — que separa os óxidos individuais e agrega a maior parte do valor — exige tecnologia complexa e investimentos bilionários. Atualmente, apenas a China e, em menor escala, a Malásia e os Estados Unidos possuem capacidade de processamento em larga escala.
A fala de Lula ocorre em um momento de atritos com Trump, que no mês passado compartilhou uma reportagem questionando a integridade das urnas brasileiras, como revelou o PIRANOT. O recado desta sexta-feira, portanto, carrega também um tom de provocação política.
Falta de detalhes sobre financiamento e tecnologia
O presidente não informou a origem dos recursos para erguer plantas de refino, cujo custo pode chegar a bilhões de dólares. Também não foi anunciada nenhuma parceria com empresas ou países detentores da tecnologia de separação química, atualmente concentrada na China.
A reunião desta sexta não resultou em medidas concretas, como a criação de um fundo ou a assinatura de acordos. O governo limitou-se a sinalizar uma mudança de postura, sem estabelecer prazos ou metas. “Essa reunião de hoje é a mudança da nossa história nessa questão das terras raras e minerais críticos”, afirmou Lula, sem dar mais detalhes.
Especialistas ouvidos reservadamente apontam que, sem transferência de tecnologia, o Brasil dificilmente conseguirá competir com os chineses no curto prazo. A viabilidade do plano dependerá de investimentos robustos e de negociações internacionais que ainda não foram iniciadas.
O Palácio do Planalto não respondeu aos questionamentos sobre os próximos passos até a publicação desta reportagem.










