A Suprema Corte dos Estados Unidos rejeitou nesta segunda-feira (29) a tentativa do presidente Donald Trump de demitir Lisa Cook, diretora do Federal Reserve (Fed), em uma decisão que preserva — ao menos por ora — a independência do banco central americano. Por 5 votos a 4, os ministros impediram a remoção imediata de Cook, nomeada pelo ex-presidente Joe Biden em 2022 e com mandato garantido até 2038.
O caso não tem precedente desde a criação do Fed, em 1913: nenhum presidente havia tentado destituir um dirigente do conselho com base em argumentos políticos — e sido bloqueado judicialmente. Trump alegou que Cook teria cometido fraude hipotecária antes de assumir o cargo — acusação não verificada por nenhuma investigação independente e rejeitada pela própria diretora. A Suprema Corte manteve Cook no posto enquanto o mérito da disputa ainda tramita nas instâncias inferiores.
A decisão representa um revés para Trump, que desde agosto de 2025 busca remover Cook por decreto. A Casa Branca recorreu à Suprema Corte após a Corte de Apelações do Distrito de Columbia negar o pedido em setembro — e a maioria dos ministros concluiu que o presidente não tem poder absoluto para demitir integrantes do Fed antes do término do mandato sem causa comprovada.
O histórico do embate
Lisa Cook, primeira mulher negra a integrar o conselho do Fed, foi indicada por Joe Biden em 2022 e confirmada pelo Senado. O mandato de 14 anos foi desenhado para proteger dirigentes do banco central de pressões políticas — mas Trump argumentou que a acusação de fraude justificaria a remoção imediata. Após a derrota na Corte de Apelações, o Departamento de Justiça buscou uma liminar diretamente na Suprema Corte. A defesa de Cook classificou a tentativa como ataque direto à autonomia do banco central americano.
Durante audiência em janeiro de 2026, ministros de diferentes espectros ideológicos demonstraram ceticismo diante dos argumentos do governo. A decisão desta segunda-feira, embora provisória, sinaliza que a Corte não aceita o uso de acusações não verificadas para interferir na política monetária. O Fed é responsável por definir os juros básicos dos EUA — e sua influência se estende ao custo do crédito em todo o mundo.
O que está em jogo para o Brasil e o mundo
A independência do Fed é considerada pilar da estabilidade financeira internacional. Qualquer interferência política sobre seus dirigentes abala a confiança de investidores e eleva o prêmio de risco de ativos em mercados emergentes — incluindo o Brasil. A decisão afasta, ao menos temporariamente, o risco de politização da política monetária americana, o que tende a conter a volatilidade do dólar e dos juros globais.
Para o Brasil, o impacto é indireto mas real: o Fed influencia o custo do dinheiro no mundo, e a percepção de menor risco regulatório favorece a entrada de capitais estrangeiros. Em paralelo, Trump acumula reveses em outras batalhas judiciais — de restrições eleitorais a disputas sobre competências regulatórias — num padrão de contenção ao poder presidencial pelos tribunais americanos.
O próximo passo é a análise do mérito pela Suprema Corte, que pode definir de forma definitiva se o presidente tem ou não autoridade para demitir membros do Fed. A expectativa é que os ministros emitam uma decisão final até o fim do ano legislativo. Até lá, Lisa Cook permanece no cargo e o Fed mantém sua direção colegiada intacta.










