O Banco Central projeta que a inflação permanecerá acima do teto da meta até o fim de 2026, com 79% de probabilidade de o IPCA superar 4,5%, segundo o Relatório de Política Monetária divulgado nesta quinta-feira (25). A autoridade mantém a taxa básica de juros (Selic) em 14,25% ao ano e admite que pode precisar escrever nova carta aberta ao Ministério da Fazenda.
Para dezembro, a projeção do IPCA em 12 meses chega a 5,2%, acima dos 4,8% projetados para outubro. O IPCA acumulado em 12 meses até maio já estava em 4,72%, fora do intervalo de tolerância. O relatório também elevou a estimativa de crescimento do PIB para 2% em 2026.
Choques de oferta e resposta gradual
O Banco Central reiterou que choques de oferta — como variações no preço de commodities — não exigem reação monetária imediata. A autoridade argumenta que as melhores práticas internacionais recomendam acomodar esses choques sem elevar juros, evitando destruir demanda e emprego. A posição sustenta a manutenção da Selic em 14,25%, sem alta adicional.
Para 2027, a probabilidade de o IPCA ficar acima do teto cai para 28%, e para 2028, para 16%. Os números indicam que a autoridade espera uma convergência lenta da inflação ao intervalo da meta, sem prazo definido para o retorno.
Regime de meta contínua e gatilho da carta
Desde 2025, o Brasil opera com meta contínua de inflação de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%. Sob esse regime, o descumprimento não se configura por um desvio pontual, mas pela persistência: se a inflação permanecer seis meses consecutivos acima de 4,5%, o Banco Central é obrigado a enviar carta aberta justificando o caminho de convergência ao Ministério da Fazenda.
O documento deve detalhar as causas do desvio e o plano de retorno da inflação à meta. A última ata do Copom foi considerada confusa pelo mercado — o ex-presidente da autarquia Henrique Meirelles criticou a falta de clareza sobre o prazo de convergência. O relatório de junho apresenta probabilidades, mas ainda não fixa data para o retorno ao intervalo de tolerância.
Impacto no crédito e no bolso
Com a Selic em 14,25% e a inflação projetada acima do teto por mais tempo, o custo do crédito permanece elevado para famílias e empresas. Prestações, contratos e financiamentos continuam atrelados a juros altos, limitando o fôlego do orçamento doméstico e o planejamento de investimentos no setor produtivo.
A combinação de inflação persistente e juros altos também pressiona a revisão de preços e contratos atrelados ao IPCA no setor público e privado. O PIB projetado em 2% sinaliza expansão moderada — suficiente para evitar recessão, mas sem aceleração que justifique cortes mais agressivos na taxa de juros no curto prazo.
O próximo marco institucional é a publicação da ata do Copom, que deve trazer a avaliação detalhada dos diretores sobre a trajetória de inflação. Se o IPCA confirmar seis meses consecutivos acima de 4,5%, a carta aberta deixa de ser hipótese e passa a integrar a rotina formal da autoridade monetária. Se houver convergência antes desse marco, o Banco Central terá espaço para retomar o ciclo de cortes da Selic com maior folga.











