O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira (17), na França, que percebeu em Volodymyr Zelensky uma disposição inédita para buscar uma saída negociada para a guerra na Ucrânia. A declaração foi feita depois de uma reunião bilateral de cerca de 40 minutos entre os dois líderes durante a Cúpula do G7.
“Pela primeira vez, senti Zelensky com disposição de encontrar solução”, disse Lula, ao comentar a conversa com o presidente ucraniano. A frase marca uma mudança de tom na leitura do governo brasileiro sobre Kiev, mas não significa, por si só, um compromisso formal da Ucrânia com cessar-fogo, negociação imediata ou mediação conduzida pelo Brasil.
A reunião reabre um canal político importante entre Brasília e Kiev. Desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022, Lula defende uma solução negociada para o conflito e tenta preservar diálogo com os dois lados. Essa posição, apresentada pelo governo brasileiro como neutralidade ativa, já provocou atritos com aliados ocidentais da Ucrânia e também com o próprio Zelensky.
O encontro desta quarta ocorre em um ambiente diplomático sensível. A guerra já passa de três anos, deixou mais de 100 mil mortos e continua no centro da agenda de segurança de Estados Unidos e Europa. Para o Brasil, qualquer movimento sobre a Ucrânia tem impacto além do conflito: atravessa a relação com Washington, com capitais europeias e com Moscou, parceiro relevante em temas comerciais e multilaterais.
Declaração de Lula não equivale a acordo com Kiev
A leitura apresentada por Lula deve ser entendida como avaliação política do presidente brasileiro. Zelensky não anunciou, após a reunião, uma posição equivalente à descrita por Lula nem apresentou um plano bilateral de negociação com participação do Brasil.
Esse ponto é decisivo porque a Ucrânia condiciona qualquer negociação ao reconhecimento de sua soberania e à pressão internacional contra a ocupação russa. Já o Brasil tem insistido na necessidade de conversas que envolvam as partes diretamente em guerra e atores com influência sobre Moscou e Kiev.
A diferença em relação a momentos anteriores está no tom. Em 2023, Lula e Zelensky se encontraram à margem do G7 de Hiroshima, no Japão, em uma aproximação marcada por desconfiança. Na época, o presidente ucraniano criticou publicamente a postura brasileira e cobrou maior alinhamento contra a Rússia.
Agora, Lula busca apresentar a conversa como sinal de que há espaço para manter a Ucrânia em uma rota diplomática com o Brasil. O ganho concreto, por enquanto, é a retomada de diálogo direto em alto nível, não a abertura de uma mesa formal de paz.
Brasil tenta preservar espaço entre Ocidente e Rússia
A estratégia brasileira depende de equilíbrio difícil. Ao mesmo tempo em que condena a violação territorial e defende o fim da guerra, Lula evita aderir integralmente à linha de pressão militar e diplomática adotada por Estados Unidos e União Europeia contra Moscou.
Essa postura dá ao Brasil margem para falar com diferentes lados, mas também limita sua influência prática. Sem adesão clara de Kiev e sem sinal público de Moscou, uma eventual iniciativa brasileira permanece no campo da articulação política, sem capacidade imediata de produzir cessar-fogo.
O resultado da reunião no G7, portanto, é mais diplomático do que operacional. Lula sai do encontro dizendo enxergar abertura em Zelensky; Kiev mantém sua posição pública sem anúncio de concessões; e o Brasil preserva um canal que pode ser acionado se houver disposição das partes para transformar conversas em proposta formal.











