Flávio Bolsonaro, senador pelo PL e pré-candidato à Presidência em 2026, defendeu nesta segunda-feira (15), em São Paulo, a manutenção do Bolsa Família e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 por mês. A fala desloca o discurso do bolsonarismo para duas agendas de forte apelo popular e hoje associadas ao governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Em participação no Fórum Rumos do Brasil, Flávio disse que programas de transferência de renda não devem ser retirados de famílias pobres. Também sustentou a faixa de isenção de R$ 5.000 no IR, bandeira que atinge diretamente trabalhadores formais e entrou no centro da disputa eleitoral sobre renda, tributos e contas públicas.
O senador não apresentou, no evento, uma estimativa de custo fiscal para as medidas nem explicou de onde viriam os recursos para sustentá-las. Essa é a principal lacuna política da proposta: defender a preservação de benefícios e a redução de imposto agrada ao eleitorado, mas exige compensação orçamentária, corte de despesas ou aumento de arrecadação em outra frente.
Bolsa Família vira terreno de disputa na direita
A defesa do Bolsa Família tem peso simbólico porque contrasta com a marca do governo Jair Bolsonaro. Na gestão do ex-presidente, o programa foi substituído pelo Auxílio Brasil. Agora, o filho mais velho de Bolsonaro se apresenta como candidato disposto a manter o desenho social que voltou ao centro da política federal no governo Lula.
Flávio também defendeu uma regra de transição para famílias beneficiárias que conseguem emprego, de modo que a entrada no mercado de trabalho não signifique perda imediata da transferência de renda. A ideia mira um ponto sensível do programa: evitar que o beneficiário veja o trabalho formal como risco de queda brusca na renda doméstica.
O Bolsa Família atende cerca de 19 milhões de famílias e alcança aproximadamente 50 milhões de pessoas. Por essa escala, qualquer promessa sobre o programa tem impacto eleitoral direto, sobretudo entre eleitores de baixa renda, grupo decisivo nas últimas eleições presidenciais.
Isenção do IR amplia pressão por uma conta fiscal
A proposta de isentar do Imposto de Renda quem recebe até R$ 5.000 por mês coloca Flávio em uma agenda de alcance mais amplo, voltada à classe média assalariada. A promessa é simples de comunicar, mas difícil de fechar sem uma fonte de compensação, porque reduz receita federal em uma área sensível do Orçamento.
Até aqui, a fala do pré-candidato funciona mais como sinal eleitoral do que como programa econômico. Flávio não detalhou se a isenção seria imediata ou gradual, se dependeria de revisão de gastos, se viria acompanhada de mudança em outras faixas de renda ou se seria compensada por nova tributação.
Movimento tenta diferenciar Flávio no campo bolsonarista
A guinada para temas de renda ocorre enquanto Flávio tenta construir uma candidatura própria dentro do campo bolsonarista. O senador tem buscado se apresentar como herdeiro político de Jair Bolsonaro, mas com margem para ajustar o discurso a temas que costumam favorecer Lula, especialmente proteção social e alívio tributário para a base da pirâmide.
Esse reposicionamento também ocorre em meio a disputas internas na direita sobre alianças, vice e identidade da campanha de 2026. Ao defender Bolsa Família e isenção de IR, Flávio força aliados e adversários a responderem a uma pergunta central: quem conseguirá falar com o eleitor de baixa renda sem romper com a promessa de responsabilidade fiscal.
O efeito imediato da fala é levar o debate social e tributário para a pré-campanha presidencial. A partir de agora, a cobrança sobre Flávio deixa de ser apenas ideológica e passa a ser também orçamentária: manter benefício, reduzir imposto e preservar as contas públicas ao mesmo tempo exige uma conta que ainda não foi apresentada.











