O governador Tarcísio de Freitas anunciou nesta terça-feira (9) um repasse de R$ 801 milhões para a saúde de 645 cidades paulistas. O volume impressiona pela escala, mas 75% do total — R$ 600 milhões — saem de emendas impositivas indicadas por deputados estaduais cujos nomes o Palácio dos Bandeirantes decidiu manter sob sigilo. O dinheiro começa a chegar aos cofres municipais em agosto, turbinando um setor que acumula déficits, mas a blindagem sobre os padrinhos políticos acendeu um sinal de alerta na Assembleia Legislativa e entre prefeitos que não foram contemplados na primeira leva.
Os recursos integram o SUS Paulista, programa desenhado para complementar o financiamento federal da saúde nos municípios. No fim de maio, o governo já havia liberado R$ 140 milhões para hospitais do Grande ABC — uma prévia que priorizou São Bernardo do Campo (R$ 70 milhões) e Diadema (R$ 24 milhões). Agora, a escala é outra: o novo repasse alcança quase todas as cidades paulistas, mas a ausência de transparência sobre os critérios de distribuição embaralha o mapa. Sem a divulgação de quem indicou cada fatia, fica impossível verificar se a divisão obedeceu a uma fila técnica ou se foi calibrada conforme afinidades políticas regionais — ponto sensível em ano eleitoral, quando Tarcísio costura alianças para pavimentar a reeleição.
A execução dos repasses caberá à Secretaria Estadual de Saúde. As emendas impositivas são uma reserva do Orçamento de 2026 cujos autores o governo se recusa a revelar até a publicação dos atos oficiais. Enquanto isso, o pacote funciona como um compromisso de pagamento — e como um sinal inequívoco de que a máquina pública opera, cada vez mais, sob a influência direta do varejo parlamentar. O cheque robusto fortalece a relação do Palácio dos Bandeirantes com os prefeitos, mas recoloca no centro do debate a tensão entre critério clínico e conveniência política que há décadas marca o orçamento da saúde.
A Assembleia Legislativa já cobra a lista de deputados que indicaram as emendas. A expectativa é que o governo publique os atos com os detalhes nas próximas semanas, à medida que os repasses forem oficializados. Até lá, a combinação de cifras bilionárias, silêncio sobre os padrinhos e calendário eleitoral mantém a pressão sobre o Palácio dos Bandeirantes.











