O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou nesta quarta-feira (3), em Brasília, que irá à Cúpula do G7 para “colocar ordem na casa” e enviará uma carta a Donald Trump, um dia após o USTR recomendar tarifa de 25% sobre exportações brasileiras. A declaração transforma a disputa comercial em embate diplomático direto, já que o presidente americano também é esperado no encontro.
Em reunião com ministros no Palácio do Planalto, Lula atacou o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e ameaçou procurar outros parceiros comerciais caso a sobretaxa avance. O Planalto não divulgou o teor da carta nem informou se há canal técnico de negociação aberto com Washington.
Investigação 301 mira etanol, pagamentos e propriedade intelectual
A recomendação de tarifa decorre da investigação 301 aberta pelo USTR em julho de 2025, instrumento usado pelo governo americano para examinar práticas comerciais consideradas problemáticas por Washington. No caso brasileiro, o procedimento abrange comércio digital, meios de pagamento, tarifas preferenciais, regras anticorrupção, propriedade intelectual e etanol.
É o primeiro conflito comercial de grande escala entre Brasil e Estados Unidos desde a disputa do algodão, que se arrastou de 2002 a 2014. A recomendação foi registrada na terça-feira (2); Lula respondeu no dia seguinte com o anúncio da viagem ao G7 e da carta a Trump.
Exportações aos EUA caem pelo sexto mês e expõem fluxo de US$ 2,4 bi
O tarifaço atinge um fluxo comercial em retração acelerada. Em janeiro de 2026, as exportações brasileiras aos Estados Unidos somaram US$ 2,4 bilhões, queda de 25,5% na comparação anual e sexto recuo mensal consecutivo. O déficit bilateral no mês foi de US$ 0,7 bilhão, alta de 200% ante janeiro de 2025.
No acumulado até abril, as vendas ao mercado americano caíram 16,7%. No mesmo recorte, os Estados Unidos responderam por menos de 10% das exportações brasileiras pela primeira vez em 200 anos, enquanto o comércio com a China cresceu 25,4% — diversificação que reduz a dependência relativa, mas não anula o impacto sobre contratos, preços e planejamento de exportadores que vendem aos EUA.
Tarifaço pressiona orçamento já contingenciado em R$ 23,7 bi
O governo brasileiro ainda não anunciou medida compensatória nem divulgou cálculo oficial de perda de arrecadação caso a tarifa entre em vigor. A tensão se sobrepõe a um quadro fiscal apertado: o Executivo bloqueou R$ 23,7 bilhões no Orçamento de 2026, o maior contingenciamento do ano. Para as empresas exportadoras, o risco imediato é perda de margem, revisão de contratos e necessidade de redirecionar embarques.
Próximos passos: carta, G7 e ato oficial dos EUA
Até que Washington formalize a medida em ato oficial, a tarifa de 25% permanece como recomendação do USTR — não como cobrança em vigor sobre produtos brasileiros. O eventual encontro entre Lula e Trump à margem do G7 deve definir se a disputa caminha para negociação ou para escalada comercial.











