A estreia da Compass (PASS3) na B3, em 11 de maio, encerrou um jejum de quase cinco anos sem ofertas públicas iniciais no Brasil e terminou a primeira semana de negociação com queda de 5,44%, segundo a Exame. A ação saiu a R$ 28, piso da faixa indicativa, e a oferta movimentou R$ 3,2 bilhões, incluindo os lotes extras. No mesmo período, o Ibovespa recuou 3,71%, no pior desempenho semanal desde março.
O recuo eliminou cerca de R$ 1,1 bilhão em valor de mercado e jogou um balde de água fria no otimismo que cercava a operação, vista por bancos e gestores como termômetro da reabertura do mercado de capitais. No primeiro pregão, a PASS3 já havia cedido 2,18%, conforme o InfoMoney, em meio à pressão sobre o Ibovespa por incertezas fiscais e pelo cenário externo.
“O fluxo expressivo de investidores estrangeiros na B3 é um sinal claro de que a confiança no mercado de capitais brasileiro está voltando”, afirmou a B3 ao Estadão, ao comentar a entrada de R$ 53,2 bilhões em recursos externos na bolsa brasileira em 2026 até a data da estreia da Compass.
O discurso da bolsa, no entanto, descola da leitura dos bancos. A B3 projeta mais de 50 companhias “na boca do gol” para abrir capital, com concentração em tecnologia, energia e infraestrutura, segundo o Valor Investe. Já o Bradesco, em análise mais conservadora divulgada pelo Estadão, identificou 12 empresas com estruturas societárias e documentos em estágio avançado, prontas para acessar o mercado “assim que a volatilidade diminuir e a janela se consolidar”.
A diferença entre as duas contas expõe a distância entre o interesse declarado e a prontidão efetiva. Enquanto a bolsa contabiliza qualquer sinalização de intenção, bancos de investimento filtram apenas empresas com due diligence concluída e valuation alinhado ao apetite atual. O tropeço da Compass, mesmo com preço cravado no piso da faixa, tende a empurrar candidatos a rever cronogramas e faixas de preço.
O ambiente externo também pesa. A SpaceX protocolou pedido de IPO na Nasdaq com valuation de até US$ 2 trilhões, movimento que pode drenar parte da liquidez internacional destinada a mercados emergentes. No mercado doméstico, instrumentos alternativos como os FIDCs avançaram 47,6% no ano, mas 87 fundos estão em recuperação judicial — sinal de que o apetite por risco segue seletivo. A Copasa, outra companhia de saneamento, adiou a escolha de sócio estratégico e viu suas ações caírem 4,3%, reforçando que a janela para operações de capital ainda não é uniforme.
O último IPO de grande porte na B3 antes da Compass havia sido o da Sabesp, em 2021. Desde então, juros elevados, volatilidade cambial e crises de credibilidade mantiveram a porteira fechada. A reabertura, agora, dependerá menos do discurso institucional e mais da capacidade de o próximo emissor entregar um valuation que o investidor topa pagar — e segurar.
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