Uma pesquisa inédita apresentada nesta terça-feira (26) durante a Rio2C 2026 revela um retrato das preferências culturais dos brasileiros: o sertanejo aparece como ritmo preferido de 26% dos entrevistados, superando gêneros tradicionalmente associados à identidade nacional como samba, pagode e MPB. O estudo “Cultura no Espelho”, conduzido pela Globo em parceria com o instituto Quaest, ouviu mais de 10 mil pessoas em todo o país e traça um panorama que ajuda a explicar decisões estratégicas da principal emissora de televisão do Brasil. Os dados foram divulgados durante painel realizado na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro.
Os números mostram uma hierarquia clara de preferências musicais. Após o sertanejo (26%), aparece a música gospel ou religiosa, com 16% das preferências. O forró e o piseiro somam 10%, enquanto samba e pagode juntos representam 9%. A MPB aparece com 8% de preferência. A soma dos gêneros tradicionalmente associados ao cânone cultural brasileiro — samba, pagode e MPB — não ultrapassa 17% do total, enquanto sertanejo e gospel combinados atingem 42% das preferências declaradas.
A pesquisa também revela que a distribuição de capital cultural no Brasil segue a mesma lógica da desigualdade econômica: muitos brasileiros têm pouco acesso à cultura e poucos concentram repertório cultural elevado. Segundo análise publicada pelo jornal Valor Econômico, o estudo indica que a cultura brasileira historicamente privilegiou determinados grupos em detrimento da maioria da população. O levantamento aponta ainda que a escolaridade e a renda influenciam diretamente o consumo cultural: quanto maior o nível educacional, maior a diversidade de gêneros musicais consumidos.
Conexão com a estratégia da Globo
A constatação de que o samba e a MPB — gêneros tradicionalmente associados ao imaginário cultural brasileiro — somam menos de 20% das preferências oferece uma explicação para a reorientação da Globo em direção ao universo sertanejo e agro nos últimos anos. A emissora ampliou investimentos em programação voltada para esse público, incluindo atrações especiais e cobertura de eventos do segmento. Os números da pesquisa Globo/Quaest justificam a estratégia: há um público massivo que não se reconhece nos gêneros tradicionalmente privilegiados pela programação cultural.
Para anunciantes e gestores de mídia, o mapeamento oferece diretrizes claras sobre onde concentrar investimentos publicitários. A correlação entre preferência musical e perfil socioeconômico permite segmentações mais precisas de audiência. A pesquisa também dimensiona o peso econômico do segmento: o agronegócio responde por parcela significativa do PIB brasileiro, e o público sertanejo representa um mercado consumidor relevante para marcas de diferentes setores.
Representatividade e elitismo cultural
A questão da representatividade cultural foi levantada recentemente pelo ator e comediante Luis Miranda. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Miranda criticou o elitismo histórico da produção cultural brasileira. “Cultura foi feita para um grupo específico, e o povo não se reconhecia”, afirmou o ator, que participou de painel sobre o tema durante a Rio2C.
A declaração de Miranda dialoga diretamente com os dados da pesquisa: se a cultura brasileira foi historicamente produzida para um público específico — com maior capital cultural e econômico —, é natural que a maioria da população não se identifique com gêneros como MPB ou samba em sua rotina de consumo. O sertanejo e a música gospel alcançam audiências massivas e refletem a realidade cotidiana de grande parte dos brasileiros.
Limites metodológicos e ausência de série histórica
Especialistas em mídia acompanham com atenção os desdobramentos do estudo. A principal questão em aberto é metodológica: a pesquisa não apresenta série histórica que permita afirmar se houve mudança nas preferências ao longo do tempo ou se os números revelam um cenário que sempre existiu, mas não era medido com precisão. A ausência de dados comparativos impede conclusões sobre “evolução” ou “declínio” de gêneros musicais específicos.
O estudo também levanta questões sobre a eficácia de políticas públicas de incentivo cultural que historicamente priorizaram gêneros com baixa penetração popular. A discussão sobre para quem é feita a cultura no Brasil ganha novos contornos com os dados da pesquisa Globo/Quaest.
Implicações para políticas públicas
A pesquisa tem implicações diretas para estratégias de mídia, publicidade e políticas públicas de cultura. Para a Globo, os dados justificam investimentos em programação voltada para o universo sertanejo e agro, que agora se mostram alinhados com as preferências declaradas da população. A emissora deve ampliar nos próximos meses sua grade de programação voltada para esse segmento.
A relação entre cultura brasileira e identidade nacional foi tema de discussão recente no PIRANOT, quando o cineasta Pedro Almodóvar afirmou que artistas têm dever de se posicionar politicamente. O debate sobre representatividade e acesso cultural no Brasil continua aberto.











