As ações da C&A (CEAB3) e da Tenda (TEND3) dispararam mais de 10% nesta terça-feira, 6 de maio, enquanto a TIM (TIMS3) despencou 7,88% — a maior queda do Ibovespa no dia. A euforia seletiva reflete a reação imediata do mercado aos balanços do primeiro trimestre de 2026, impulsionada pela queda dos juros futuros e pela expectativa de cortes na Selic, atualmente em 14,50%, conforme o Banco Central.
O movimento de rotação de carteiras para setores cíclicos, como varejo e construção civil, ganhou força com os resultados divulgados. No entanto, uma análise mais detalhada dos números expõe discrepâncias que exigem cautela.
A C&A, por exemplo, viu suas ações saltarem 12,03% após reportar um lucro líquido ajustado de R$ 8 milhões — alta de 218,7% no trimestre, segundo dados da empresa. Já o lucro líquido contábil recuou 59,1%, para R$ 1,7 milhão, de acordo com o balanço publicado.
Lucro ajustado da C&A contrasta com queda contábil
O salto do lucro ajustado da C&A no primeiro trimestre de 2026 contrasta fortemente com a queda de 59,1% no lucro líquido contábil, que ficou em apenas R$ 1,7 milhão. A discrepância acende um alerta sobre a qualidade do resultado celebrado pelo mercado.
O lucro ajustado exclui itens não recorrentes ou despesas financeiras que impactam o resultado societário, conforme a companhia, mas o detalhamento desses ajustes não foi totalmente divulgado. A varejista anunciou um programa de recompra de até 7,5 milhões de ações, o que pode ser interpretado como sinal de confiança da gestão, mas também como um possível suporte artificial ao papel.
Analistas consultados ponderam que métricas ajustadas, por não serem auditadas, oferecem risco de euforia excessiva em papéis cíclicos, especialmente em um cenário de juros ainda elevados. “O investidor pessoa física precisa entender que o lucro ajustado pode mascarar fragilidades operacionais; o que realmente entra no caixa da empresa é o lucro líquido contábil”, alertou a XP Investimentos em relatório.
Tenda dobra lucro e aposta na baixa renda
A Tenda (TEND3) reportou lucro líquido de R$ 183,4 milhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 114,5% sobre o mesmo período de 2025, conforme balanço divulgado pela companhia. O resultado superou as estimativas de analistas e impulsionou as ações em 9,85%, a R$ 31,55.
“O desempenho reflete a estratégia de foco no segmento de baixa renda e a retomada dos lançamentos”, afirmou a construtora em seu release de resultados. A empresa também elevou seu guidance de lançamentos para 2026, sinalizando confiança na demanda por habitação popular.
O Safra destacou que a Tenda se beneficia diretamente do ciclo de cortes na Selic, que reduz o custo de financiamento para a baixa renda, e de programas como o Minha Casa Minha Vida. “A ação ainda oferece upside, mas o valuation já embute parte desse otimismo”, ponderou o banco em relatório.
TIM frustra com margens pressionadas e cai 7,88%
A TIM (TIMS3) viu suas ações despencarem 7,88% no pregão, a R$ 24,44, liderando as perdas do Ibovespa, após divulgar um balanço do primeiro trimestre que frustrou analistas. Embora a receita líquida tenha vindo em linha com as projeções, as margens pressionadas e o lucro abaixo do consenso acenderam um sinal de alerta.
Segundo relatório do BTG Pactual, o resultado foi considerado fraco, com a operadora sofrendo com custos elevados de infraestrutura e a competição acirrada no setor de telecomunicações. A XP Investimentos também revisou suas projeções para o papel, mantendo cautela diante da dificuldade da empresa em converter receita em rentabilidade.
O mercado já vinha monitorando os pesados investimentos da TIM na expansão da rede 5G, que pressionam o fluxo de caixa no curto prazo, enquanto a guerra de preços com rivais corrói as margens. A queda acentuada, após o papel ter acumulado ganhos no ano, sugere uma realização de lucros diante de um cenário de incertezas sobre a capacidade da operadora de equilibrar crescimento e rentabilidade.
Lições para o investidor pessoa física
A disparada de C&A (CEAB3) após o balanço do 1T26 ilustra um risco clássico: comprar pela euforia do movimento percentual sem analisar os números completos. Enquanto as ações saltaram até 12% no dia 6 de maio, o lucro líquido contábil da varejista recuou 59,1% no período, para R$ 1,7 milhão, conforme dados do balanço.
O mercado, no entanto, preferiu focar no lucro ajustado, que triplicou para R$ 8 milhões, ignorando itens não recorrentes que pesaram no resultado final. A volatilidade pós-balanço, portanto, é oportunidade para quem fez a lição de casa e consegue distinguir entre ajustes contábeis e fundamentos sólidos.
Para os desavisados, a alta repentina pode ser uma armadilha: a Tenda (TEND3), por exemplo, subiu 9,85% com lucro de R$ 183,4 milhões, mas seu endividamento elevado em um cenário de juros ainda altos exige cautela. A TIM (TIMS3), ao cair 7,88% por margens pressionadas, mostra que o mercado pune rapidamente a ineficiência — mesmo em empresas com receita resiliente. O pregão reforça a máxima de que balanços são lidos em detalhes, não em manchetes.











