Cento e cinquenta e seis quilos de cocaína, avaliados em R$ 3,1 milhões, foram apreendidos em São Roque (SP) escondidos sob uma camada de esterco, naftalina e graxa. O método, projetado para neutralizar o faro de cães treinados, revela a sofisticação das quadrilhas que abastecem o ABC Paulista a partir do interior.
A carga estava em cinco malas, acondicionadas entre pneus em um caminhão estacionado em uma borracharia. O flagrante, em 4 de maio, foi resultado de investigações da 4ª Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), do Denarc, conforme a Polícia Civil de São Paulo.
O motorista, de 37 anos, foi preso em flagrante por tráfico de drogas. A polícia também apreendeu um celular, que passa por análise pericial para rastrear contatos e desvendar a rede criminosa por trás do transporte.
Técnica de camuflagem com esterco e naftalina
A combinação de fezes animais, naftalina e graxa não foi aleatória. De acordo com a 4ª Dise, os 146 tijolos de cocaína foram revestidos para saturar o olfato dos cães farejadores e mascarar o odor característico da droga. “O flagrante ocorreu após investigações que indicavam o uso do veículo para o transporte de entorpecentes”, informou a polícia.
Esse não é um caso isolado. Levantamento da própria Dise indica que, nos últimos dois anos, ao menos três apreensões em rodovias paulistas usaram táticas similares de mascaramento olfativo. Em 2024, traficantes revestiram tabletes com pó de café e pimenta; em outra ocorrência, esconderam a carga em compartimentos de combustível adulterado.
Agentes envolvidos na operação relataram que cães treinados podem ter o faro confundido por odores intensos como os da naftalina, retardando a localização. A graxa, por sua vez, dificulta a liberação de partículas voláteis da substância entorpecente, conforme detalhou a Polícia Civil.
Rota estratégica de São Roque ao ABC Paulista
A localização de São Roque, às margens da Rodovia Castello Branco, foi determinante para a escolha da rota. O município oferece acesso rápido à capital e ao Grande ABC, facilitando a distribuição da droga, segundo a Polícia Civil. O destino final, São Bernardo do Campo, é um dos principais centros consumidores da região.
O caminhão, carregado com pneus, foi abordado após trabalho de inteligência da 4ª Dise. A escolha por cargas lícitas como fachada é um padrão recorrente no tráfico regional, que explora a alta circulação de mercadorias pelo eixo da Castello Branco para diluir o risco.
Para cidades como Piracicaba, que integra rotas alternativas do interior ao ABC, o caso acende um alerta. A malha viária que conecta o centro-oeste paulista à macrometrópole, passando por rodovias como a SP-304 e a SP-147, é monitorada por forças de segurança, mas a criatividade dos traficantes exige constante atualização das técnicas de fiscalização.
Investigação mira rede criminosa além do motorista
A prisão do motorista não encerrou as investigações. O delegado responsável pela 4ª Dise/Denarc declarou que a operação busca identificar outros envolvidos. “A investigação continua para identificar os demais integrantes da organização criminosa”, afirmou a autoridade policial.
O celular apreendido com o suspeito é considerado peça-chave para rastrear fornecedores, transportadores e receptadores. A análise pericial do aparelho pode revelar conexões interestaduais da quadrilha, que atua no aliciamento de motoristas de cargas lícitas como mulas.
O uso de métodos sofisticados de camuflagem, como esterco e naftalina, indica planejamento e conhecimento técnico por parte do grupo. A rota do interior ao ABC Paulista, destino final dos 156 kg de cocaína, é estratégica para abastecer grandes centros consumidores, conforme dados de inteligência policial.











