A escola de baristas Coffee Lab, em São Paulo, reduziu a jornada de trabalho de seus funcionários de 44 para 32 horas semanais, sem cortar salários, e viu o faturamento saltar 35% em um ano. A adoção da escala 4×3 — quatro dias de trabalho por três de descanso — também derrubou pela metade a rotatividade de pessoal e zerou os atrasos. O experimento desafia o senso comum empresarial e ganha relevância em meio à discussão sobre o fim da jornada 6×1 no Congresso Nacional.
Origem e motivação da mudança
Fundada em 2018, a Coffee Lab atua como escola, consultoria e cafeteria de cafés especiais. Com 12 funcionários, a empresa enfrentava dificuldades para reter talentos em um setor marcado por alta rotatividade e jornadas extenuantes. “A gente perdia profissionais qualificados porque o mercado de hospitalidade suga as pessoas. Era comum atrasos e cansaço extremo”, relata Isabela Raposeiras, sócia-fundadora.
A virada veio em 2024, quando a empresa decidiu testar o modelo 4×3. A inspiração veio de experiências internacionais, como o projeto-piloto 4 Day Week Global, que no Reino Unido envolveu 61 empresas e registrou aumento de 35% na receita e queda de 57% na rotatividade, conforme relatório da Universidade de Cambridge. No Brasil, a escala ganhou impulso com o movimento “Vida Além do Trabalho”, que deu origem à PEC pelo fim da escala 6×1, aprovada na CCJ da Câmara em 2024 e agora em debate.
“Não foi fácil no começo. Tivemos que reorganizar toda a operação, usar mais tecnologia e confiar na equipe”, conta Raposeiras. A empresa investiu em sistemas de agendamento online, automatizou processos de torrefação e redistribuiu tarefas. O resultado: os funcionários passaram a se sentir mais descansados e engajados. “Agora, todo mundo chega no horário e a qualidade do atendimento melhorou muito. O cliente percebe”, afirma.
Resultados financeiros e operacionais
Os números da Coffee Lab ecoam dados globais. Levantamento da consultoria Robert Half com 1.800 gestores na América Latina mostrou que 72% das empresas que adotaram semana reduzida tiveram aumento de produtividade. No Brasil, 41 companhias já testam o modelo, segundo o Instituto 4 Day Week. “A redução da jornada força a empresa a eliminar desperdícios e focar no que realmente importa”, explica Renata Rivetti, diretora da Reconnect Happiness at Work, consultoria que assessorou a transição da Coffee Lab.
A melhora no bem-estar dos funcionários também se refletiu nos custos. A rotatividade, que antes chegava a 40% ao ano, caiu para 20%. “Cada demissão custa, em média, de 30% a 50% do salário anual do profissional, entre recrutamento, treinamento e perda de produtividade”, calcula Rivetti. Com a equipe mais estável, a escola elevou a qualidade dos cursos e expandiu a clientela corporativa, impulsionando o faturamento.
Repercussão no debate legislativo
O caso ganha ainda mais relevância no atual debate legislativo. A PEC que propõe o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas divide opiniões. Críticos alegam que a medida pode elevar custos e prejudicar pequenos negócios. “Mas a experiência mostra que, com planejamento, é possível manter a competitividade e ainda melhorar a vida do trabalhador”, rebate Raposeiras.
Para o economista José Pastore, professor da USP e especialista em relações de trabalho, o modelo 4×3 “não é uma solução universal”. “Funciona bem em setores que exigem criatividade e atendimento personalizado, mas em indústrias de produção contínua ou serviços essenciais, a redução da jornada pode exigir contratações e aumentar o custo operacional”, pondera.
Ainda assim, a Coffee Lab planeja expandir o modelo para novas unidades e defende que o debate vá além da redução de horas. “O que realmente importa é a produtividade. Se o funcionário está feliz e descansado, ele rende mais. E isso todo empresário deveria querer”, conclui a sócia.











