A Aprosoja Brasil e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) reagiram ao Plano Safra da Agricultura Empresarial 2026/27, lançado pelo governo federal com R$ 525,1 bilhões, e afirmam que o pacote reduz o crédito que chega ao produtor para tocar a safra. A crítica se concentra nas linhas de custeio e comercialização, usadas para financiar insumos, plantio, colheita e escoamento.
Pelas contas da FPA, esses recursos caem de R$ 414,7 bilhões no ciclo anterior para R$ 384,9 bilhões agora. A diferença é de R$ 29,8 bilhões, o equivalente a uma redução de cerca de 7,2% justamente na parte do plano que sustenta a operação diária das lavouras.
O governo anunciou aumento nominal de R$ 9 bilhões no volume total do Plano Safra, alta de 1,7%. Para as entidades do agro, porém, o número cheio dilui a perda no custeio porque incorpora rubricas de outra natureza, como recursos do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé) e linhas de investimento de prazo mais longo. A Aprosoja calcula que, descontada essa composição, a contração real do crédito efetivo ao produtor chega a aproximadamente R$ 13,6 bilhões.
Investimento cresce, mas dinheiro do dia a dia encolhe
A principal mudança na composição do plano está no avanço das linhas de investimento, que financiam máquinas, armazenagem e estruturas de longo prazo. Essa fatia sobe 38% e chega a R$ 140,2 bilhões. O problema, na avaliação da Aprosoja, é que esse aumento não substitui o crédito de custeio, porque atende outra finalidade e tem ritmo de contratação diferente.
“É um plano que aparentemente cresceu, mas na prática retirou dinheiro de onde o produtor mais precisa”, afirmou a entidade, em comunicado. A FPA também apontou cortes em programas específicos: o Moderfrota, voltado à aquisição de máquinas agrícolas, recua 54%, enquanto o PCA, destinado à construção e ampliação de armazéns, cai 28%.
A disputa é mais do que contábil. O custeio rural é a linha que define a capacidade de compra de sementes, fertilizantes, defensivos e combustível no início da temporada. Quando esse crédito encolhe, produtores dependem mais de capital próprio, fornecedores, tradings ou empréstimos em condições menos favoráveis. Em culturas de grande escala, como soja e milho, a diferença de limite por produtor pode alterar o planejamento de área, tecnologia aplicada e prazo de venda da produção.
Entidades cobram abertura dos números
A metodologia da FPA exclui R$ 38,5 bilhões do pacote anunciado por considerar que esse montante não integra o crédito rural tradicional. Por essa leitura, o Plano Safra não apenas cresce menos do que a inflação esperada para os custos do setor, como também reduz em 5,73% o total de recursos efetivos disponíveis ao produtor.
A Aprosoja sustenta que o crédito rural empresarial já vinha perdendo fôlego antes do lançamento do novo plano. A entidade afirma que, até maio, as contratações acumulavam retração de cerca de 5% na comparação com o mesmo período da safra anterior. O novo desenho, portanto, chega em um ambiente de demanda reprimida por financiamento e de pressão do setor por recomposição dos limites.
Com a execução do Plano Safra prevista para começar em 1º de julho, a pressão agora se desloca para a distribuição dos recursos entre programas, bancos, regiões e perfis de produtor. É nessa etapa que o pacote anunciado em Brasília se transforma em limite de crédito na agência bancária — ou em restrição para quem precisa financiar a próxima safra.
Na prática, o embate deixa o Plano Safra sob cobrança desde o primeiro dia de vigência. O governo sustenta um pacote recorde em valor nominal; as entidades do agro afirmam que o produtor terá menos dinheiro nas linhas que bancam a produção imediata. A resposta concreta aparecerá na liberação dos limites pelos agentes financeiros nas próximas semanas.








