sábado, 18 de julho de 2026
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Economia

Grupo piracicabano Cosan abre o capital da Compass na Bolsa de Valores e arrecada R$ 3,2 bilhões para quitar dívidas

Braço de gás e energia da Cosan levanta R$ 3,2 bilhões em primeiro IPO desde 2021, mas carrega endividamento elevado e depende de contratos com Petrobras e regulação da ARSESP

· 6 min de leitura · NEXUS A.I. do PIRANOT

Pontos-chave

  • Compass precificou IPO a R$ 28 por ação, levantando R$ 3,2 bilhões em oferta 100% secundária para a Cosan
  • A empresa carrega dívida líquida própria de R$ 10,5 bilhões (ex-IFRS 16), com alavancagem elevada
  • A Comgás, principal ativo, atende 2 milhões de clientes em SP e teve tarifas reduzidas em 26% pela ARSESP em 2026

A Compass, braço de gás e energia do Grupo Cosan, estreia nesta segunda-feira na B3 com o primeiro IPO em quase cinco anos. As ações foram precificadas a R$ 28, levantando R$ 3,2 bilhões em uma oferta 100% secundária. O montante vai integralmente para a controladora Cosan, que busca reduzir seu endividamento. No entanto, por trás do marco histórico, a empresa carrega uma dívida líquida própria de aproximadamente R$ 10,5 bilhões (ex-IFRS 16) e atua em um setor altamente regulado, com tarifas definidas pela Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (ARSESP) e forte dependência de contratos com a Petrobras.

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A oferta pública inicial da Compass encerra um jejum de IPOs na B3 que durava desde 2021. A operação foi coordenada por um sindicato de bancos liderado pelo BTG Pactual, com participação de Bank of America, Bradesco BBI, Citi, Itaú BBA, Santander, JPMorgan, XP, BNP Paribas e UBS BB. O preço por ação ficou na faixa inferior da estimativa inicial, entre R$ 27 e R$ 33,50, refletindo um ambiente de mercado ainda cauteloso. A oferta base foi de R$ 2,8 bilhões, com lote extra de R$ 400 milhões.

A Compass é a holding que reúne os negócios de gás natural e energia do Grupo Cosan. Seu principal ativo é a Comgás, maior distribuidora de gás canalizado do Brasil, que atende mais de 2 milhões de consumidores em 99 municípios paulistas, incluindo a região metropolitana de São Paulo e Piracicaba. Além da Comgás, a Compass controla a Necta (antiga Compass Gás e Energia), que opera no mercado livre de gás, e detém participações em térmicas e no terminal de regaseificação de São Paulo.

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A companhia foi criada em 2020 como parte da reorganização societária da Cosan, que buscava segregar os negócios de gás e energia para destravar valor. A abertura de capital agora visa dar mais transparência e acesso a capital para expansão, mas principalmente aliviar o balanço da controladora. A Cosan registrou dívida líquida consolidada de R$ 9,8 bilhões no quarto trimestre de 2025, uma redução significativa em relação aos R$ 18,2 bilhões do trimestre anterior, mas ainda pressionada por investimentos em outros negócios, como a Raízen e a Rumo.

Estrutura de negócios e regulação tarifária

A Compass atua em três segmentos: distribuição de gás canalizado (Comgás), comercialização de gás no mercado livre (Necta) e geração de energia termelétrica. A Comgás responde pela maior parte da receita e do lucro. A distribuidora opera sob contrato de concessão com o estado de São Paulo, com tarifas reguladas pela ARSESP. Em março de 2026, a agência aprovou uma redução média de 26% nas tarifas da Comgás, conforme deliberação nº 1.784, de 6 de março de 2026. A medida entrou em vigor em abril e reflete a queda nos custos de aquisição de gás, mas também pressiona as margens da distribuidora.

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Conforme a ARSESP, a revisão tarifária ocorre a cada cinco anos e considera os investimentos realizados, os custos operacionais e a remuneração do capital. A Comgás tem investido na expansão da rede, que já ultrapassa 20 mil quilômetros, e na conversão de clientes de GLP para gás natural. No entanto, a empresa enfrenta o desafio da migração de grandes consumidores para o mercado livre, onde a Necta atua. Essa migração pode reduzir a base de clientes cativos da distribuidora, afetando a sustentação da infraestrutura.

No mercado livre, a Necta compra gás de produtores como a Petrobras e revende a clientes industriais e comerciais, competindo com outros comercializadores. A empresa tem contratos de suprimento de longo prazo com a Petrobras, mas a exposição a oscilações de preços internacionais e a dependência de um único fornecedor são riscos relevantes. Em 2025, a Necta ampliou sua carteira de clientes, mas a margem nesse segmento é mais volátil.

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Impactos financeiros e perspectivas para o mercado

A estreia da Compass na bolsa é um teste para o mercado de capitais brasileiro, que não via um IPO desde a oferta da CSN Mineração em fevereiro de 2021. O desempenho das ações no pregão desta segunda-feira será um termômetro do apetite dos investidores por novos papéis. Analistas de mercado destacam que a empresa tem atrativos, como a posição dominante na distribuição de gás em São Paulo e a diversificação para o mercado livre, mas alertam para o alto endividamento e a sensibilidade regulatória.

A dívida líquida da Compass, excluindo passivos de arrendamento (IFRS 16), é de cerca de R$ 10,5 bilhões, o que representa uma alavancagem significativa. A geração de caixa é robusta, mas boa parte é consumida por investimentos obrigatórios na rede e pelo serviço da dívida. A empresa projeta investimentos de R$ 1,5 bilhão em 2026, principalmente para expansão e manutenção da rede da Comgás.

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Para os consumidores, a redução tarifária recente é positiva, mas há preocupações com a sustentabilidade de novas quedas. A ARSESP tem adotado uma postura mais rigorosa na revisão tarifária, pressionando as margens da Comgás. Em Piracicaba, onde a Comgás atende cerca de 80 mil clientes, a tarifa residencial caiu para R$ 3,20 por metro cúbico, mas ainda está entre as mais altas do estado. O Sindigás, sindicato das distribuidoras, argumenta que a tarifa reflete os custos de infraestrutura e que novas reduções dependem de ganhos de escala e de um marco regulatório mais estável.

A abertura de capital da Compass também tem implicações para a Cosan. O grupo, controlado por Rubens Ometto, busca reduzir seu endividamento e financiar investimentos em energias renováveis e logística. O IPO é parte de um plano mais amplo de desalavancagem, que incluiu a venda de participações na Raízen e na Rumo. A Cosan já soma R$ 6,2 bilhões em resgates de cotas de fundos imobiliários e outros ativos.

No curto prazo, o sucesso do IPO pode abrir caminho para outras ofertas que estavam represadas. No entanto, o cenário macroeconômico, com juros elevados e incertezas fiscais, ainda é um obstáculo. A Compass precisa mostrar que consegue gerar valor em um ambiente de transição energética e regulação mais apertada. Sua estreia na bolsa é um marco, mas o verdadeiro teste será a consistência dos resultados nos próximos trimestres.

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