Quase um em cada cinco universitários brasileiros relatou pensamentos de tirar a própria vida nas duas semanas anteriores à entrevista, segundo estudo publicado no periódico The Lancet Regional Health – Americas. A prevalência de 18,86% entre 3.828 estudantes de três instituições do Rio de Janeiro acende um alerta sobre a saúde mental no ensino superior.
A pesquisa, conduzida por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revela que fatores como assédio moral, discriminação e a percepção de falta de suporte institucional são gatilhos tão relevantes quanto a depressão para o surgimento de ideação suicida.
A amostra teve maioria de mulheres (67,6%), refletindo o perfil predominante no ensino superior do país. O levantamento aponta que a universidade, espaço de formação, pode se tornar um ambiente de adoecimento quando não oferece acolhimento.
Prevalência alarmante e perfil dos estudantes
A ideação suicida é considerada um preditor para tentativas e para o suicídio consumado. Sua alta prevalência entre jovens adultos em formação profissional demanda ações preventivas estruturadas, alertam os pesquisadores.
“A universidade precisa ser um espaço de acolhimento, não de adoecimento”, afirma a professora Alexandra Dias, uma das autoras do estudo. A fala reforça a urgência de políticas institucionais de saúde mental.
Dados complementares da Universidade de São Paulo (USP), que entrevistou mais de 12 mil estudantes, indicam que 18,5% dos universitários relataram pensamentos de morte nas últimas duas semanas. Apenas 20% dos que apresentaram ideação suicida buscaram ajuda profissional.
Fatores de risco que vão além da depressão
Situações de violência psicológica no ambiente acadêmico — de humilhações por parte de docentes a práticas de exclusão entre colegas — estão diretamente associadas ao surgimento de pensamentos suicidas, conforme o estudo da UFF, UFRJ e Uerj.
A ausência de acolhimento por parte das universidades agrava o quadro, deixando os estudantes sem redes de apoio formais em momentos de crise. Os dados indicam que políticas públicas voltadas especificamente para o ambiente universitário são urgentes.
Não basta ampliar o atendimento em saúde mental; é preciso combater ativamente o assédio e a discriminação dentro dos campi. As instituições defendem canais de denúncia eficazes e programas de prevenção que envolvam toda a comunidade acadêmica.
A pesquisa reforça que a ideação suicida é um fenômeno multifatorial, no qual o contexto institucional tem peso decisivo. Ignorar o impacto do ambiente universitário é negligenciar uma dimensão crucial do problema.
Caminhos para prevenção e acolhimento
Diante da magnitude do problema, especialistas defendem que as universidades implementem programas institucionais permanentes de saúde mental. A Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) mantém curso específico sobre prevenção ao suicídio voltado a profissionais de saúde, com foco em acolhimento e identificação precoce de sinais de risco.
A formação de redes de apoio dentro do ambiente acadêmico é apontada como medida essencial para reduzir a ideação suicida. “A universidade precisa deixar de ser um espaço que adoece e se tornar um espaço que cuida”, afirma o psiquiatra Alexandro Marcos Menegócio, coordenador do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES).
A baixa procura por ajuda profissional entre os que apresentam ideação suicida reforça a necessidade de ações preventivas que alcancem os estudantes antes que cheguem a um ponto crítico. Iniciativas como o Setembro Amarelo ganham relevância, mas precisam ser complementadas por estruturas permanentes de suporte psicológico nas instituições de ensino.
❓ Perguntas frequentes
Qual a prevalência de ideação suicida entre universitários brasileiros?
Estudo com 3.828 alunos do Rio de Janeiro apontou prevalência de 18,86%, ou seja, quase 1 em cada 5 estudantes relatou pensamentos suicidas nas duas semanas anteriores à entrevista.
Quais os principais fatores de risco para ideação suicida em universitários?
Além da depressão, a pesquisa destaca o assédio moral, a discriminação e a percepção de falta de apoio institucional como gatilhos tão relevantes quanto transtornos mentais.











