O Comitê Disciplinar da Fifa concentrou nas mãos de seu presidente, Mohammad Al Kamali, o poder de anular unilateralmente o cartão vermelho do atacante norte-americano Folarin Balogun, após um telefonema do presidente Donald Trump ao presidente da entidade, Gianni Infantino. A decisão, que liberou o jogador para as oitavas de final da Copa do Mundo, reacendeu o debate sobre a transparência e a imparcialidade do órgão disciplinar da federação.
A anulação ocorreu em 6 de julho, um dia depois de o árbitro brasileiro Raphael Claus expulsar Balogun na partida contra a Bélgica. A Uefa classificou a medida como “cruzar uma linha vermelha”, e a seleção belga protestou formalmente. Infantino negou interferência, afirmando que a decisão foi “independente e autônoma”.
Documentos da Fifa analisados pela imprensa mostram que, apesar de o comitê ter 18 integrantes, as últimas 110 deliberações publicadas foram tomadas por uma única pessoa — o próprio Al Kamali, um ex-parlamentar dos Emirados Árabes Unidos. O regulamento da Copa do Mundo permite que o presidente decida sozinho em casos urgentes, mas a entidade não informou se os demais membros foram consultados ou se houve discordância interna.
Poder monocrático em um colegiado de 18 membros
O Comitê Disciplinar da Fifa reúne juristas e dirigentes de diversos países, incluindo um nobre de Tonga e um coronel togolês. No entanto, o presidente tem autoridade para assinar decisões sem submetê-las ao plenário, especialmente em torneios de curta duração como a Copa. A prática, embora prevista em norma, ganhou holofotes após o caso Balogun.
Levantamento com base em documentos oficiais da Fifa apontou que as 110 decisões mais recentes do comitê foram publicadas com a assinatura exclusiva de Al Kamali. A entidade não detalha quantas dessas foram tomadas de forma colegiada ou monocrática, nem se os demais membros foram ao menos informados.
Pressão política e reação internacional
O telefonema de Trump a Infantino, revelado pela imprensa internacional, foi o estopim da polêmica. A Bélgica, adversária dos EUA na partida, classificou a anulação como “inaceitável” e pediu explicações. A Uefa, em nota, disse que a Fifa “cruzou uma linha vermelha” ao permitir que uma decisão de campo fosse revertida por influência externa.
Infantino, por sua vez, afirmou em comunicado oficial que a revogação do cartão foi “uma decisão independente e autônoma” do comitê disciplinar, e que não houve interferência política. A Fifa não divulgou a ata da reunião nem os votos dos membros.
A interferência direta de Trump em decisões de órgãos internacionais não é inédita. Em junho, o PIRANOT revelou que o presidente suspendeu o maior pacote habitacional dos EUA em décadas, exigindo reformas eleitorais como condição para retomada.
A polêmica deve alimentar pedidos por maior transparência no comitê disciplinar da Fifa. Até o momento, a entidade não informou se revisará seus procedimentos ou se abrirá os votos dos membros. A credibilidade da arbitragem, abalada pela anulação do cartão de Claus, segue como ponto sensível na reta final da Copa do Mundo.











