As cooperativas de crédito cruzaram uma marca simbólica no sistema financeiro brasileiro: chegaram a R$ 1,04 trilhão em ativos totais em 2025. O avanço, de 17% em relação ao ano anterior, dá ao segmento um peso que já não cabe mais na categoria de alternativa regional aos bancos tradicionais.
O crescimento aparece em duas frentes centrais para qualquer instituição financeira: captação e concessão de crédito. As captações das cooperativas somaram R$ 834,4 bilhões no período, alta de 17,6%. A carteira de crédito avançou 13,1%, ritmo que reforça a presença do modelo cooperativista em cidades médias, áreas rurais e regiões nas quais a relação com o cliente pesa tanto quanto a escala de uma rede bancária.
O salto muda a temperatura da disputa com os grandes bancos. Banco do Brasil, Bradesco, Caixa e Itaú continuam concentrando a maior fatia do mercado, mas sua participação vem caindo nos indicadores acompanhados pelo Banco Central. No segundo semestre de 2025, os quatro maiores bancos somavam 57,1% do mercado de crédito e depósitos, enquanto cooperativas e instituições não bancárias ganhavam espaço.
Por que R$ 1 trilhão muda a competição
O tamanho importa porque amplia a capacidade das cooperativas de captar recursos, emprestar e disputar clientes que antes dependiam quase exclusivamente dos bancões. Diferentemente dos bancos comerciais, as cooperativas pertencem aos associados. Na prática, esse desenho costuma sustentar uma relação mais próxima com empresas locais, produtores rurais, profissionais autônomos e famílias que buscam crédito com atendimento menos padronizado.
Isso não significa que as cooperativas substituam os grandes bancos no curto prazo. A escala dos maiores conglomerados financeiros ainda é muito superior, especialmente em crédito corporativo, meios de pagamento, mercado de capitais e serviços digitais. A mudança está em outro ponto: com mais ativos e mais depósitos, as cooperativas deixam de ser apenas complemento e passam a funcionar como pressão competitiva permanente, sobretudo em crédito rural, pequenas empresas e municípios do interior.
Essa expansão também interessa ao regulador. Desde 2023, o Banco Central acompanha com atenção o crescimento de instituições fora do núcleo bancário tradicional, porque o ganho de participação pode ampliar a concorrência, mas também exige controle de riscos, governança e capacidade de absorver perdas em momentos de estresse financeiro.
Crédito rural puxa parte do avanço
O agronegócio ajuda a explicar a força do setor. O Sicredi, maior sistema de crédito cooperativo do país, anunciou R$ 72,1 bilhões para o Plano Safra 2026/2027. O volume mostra como as cooperativas se consolidaram como canais relevantes de financiamento para produtores, especialmente onde a presença física e o conhecimento da economia local pesam na análise de crédito.
O setor também ganhou espaço institucional. Uma lei sancionada em junho de 2026 autorizou cooperativas a acessar até R$ 3 bilhões de fundos regionais. A medida tende a ampliar a oferta de recursos para operações no interior e reforça a estratégia de usar cooperativas como instrumento de crédito em regiões menos atendidas pelo sistema bancário tradicional.
No Paraná, um dos polos históricos do cooperativismo brasileiro, as cooperativas de crédito ultrapassaram 4,1 milhões de associados em julho de 2026, alta de 10,8% em um ano. O crescimento reflete a combinação de capilaridade, relacionamento local e busca por alternativas a tarifas e condições oferecidas pelos bancos de grande porte.
Tributação e capital definem o próximo teste
A expansão coloca dois temas no centro da agenda do setor: tributação e regulação prudencial. No Supremo Tribunal Federal, o Tema 536 discute a tributação de atos cooperativos. Uma decisão desfavorável pode reduzir parte da vantagem econômica do modelo e afetar a forma como cooperativas estruturam suas operações.
Na frente regulatória, o Conselho Monetário Nacional aprovou novas regras de capital de giro para cooperativas agropecuárias no âmbito do Pronaf e do Procap-Agro. A mudança busca dar mais segurança às operações de crédito rural e acompanha o aumento da relevância dessas instituições no financiamento ao campo.
O setor entra, portanto, em uma fase mais exigente. O marco de R$ 1 trilhão confirma a força das cooperativas, mas também aumenta a cobrança por capital, governança e supervisão. A disputa com os bancões não se resume a tamanho: passa pela capacidade de emprestar mais, captar melhor e manter a confiança dos associados em um mercado financeiro cada vez mais competitivo.









