quinta-feira, junho 25
12,1°C Piracicaba Nublado Umidade 99% Hoje 18° 13° Amanhã 24° 13° Rio Piracicaba 2,91 mCorumbataí 1,82 m atualizado 00h49
Publicidade
Júnior Cardoso

Opinião | Piracicaba vive governo de imposição: Zanatta aposta no desgaste de agora para tentar colher resultados até 2028

· 5 min de leitura · NEXUS A.I. do PIRANOT - Editoria de Loterias

Piracicaba vive, desde o início da gestão Helinho Zanatta, um governo de decisões duras, ritmo impositivo e alto custo político. Não é exatamente surpresa para quem acompanha os bastidores. Antes mesmo da posse, já circulava a leitura de que o novo prefeito tentaria concentrar nos primeiros meses — ou no primeiro ano e meio — as medidas mais impopulares, os enfrentamentos administrativos e os projetos capazes de gerar maior desgaste.

Publicidade

A lógica seria simples: suportar a turbulência no começo para tentar chegar a 2027 e 2028 com obras entregues, contas reorganizadas e uma narrativa de resultado. O problema é que, na política, nem sempre o eleitor separa com facilidade o transtorno de hoje da promessa de benefício amanhã.

O caso da Rodovia Geraldo de Barros, a SP-304, é talvez o melhor exemplo desse dilema. A obra dos novos dispositivos viários saiu do papel, avançou e começa a ser entregue em etapas. No papel, é uma intervenção importante para a mobilidade urbana. Na vida real, porém, o fechamento de acessos, a dificuldade de desvios e o impacto direto sobre bairros e áreas rurais criaram uma memória amarga para muitos moradores.

Publicidade

Uma obra pode ser necessária e, ao mesmo tempo, mal administrada na sua comunicação e nos seus impactos cotidianos. Esse é o ponto central. Zanatta pode tentar capitalizar politicamente a entrega, mas dificilmente conseguirá posar apenas como o prefeito que destravou a obra sem responder pelo período de congestionamentos, improvisos e desgaste.

A mesma lógica aparece no IPTU. A atualização da Planta Genérica de Valores foi defendida pela Prefeitura como uma correção necessária depois de anos de defasagem. A gestão argumentou que parte expressiva dos imóveis teria redução, que os descontos poderiam chegar a 15% e que a medida buscava corrigir distorções históricas. Ainda assim, a forma como o tema chegou à população gerou medo, revolta e uma guerra de versões nas redes sociais.

Publicidade

Houve fake news, houve exagero, houve exploração política. Mas também houve crítica legítima. Para uma parcela da população, especialmente quem viu aumento ou precisou correr atrás de boleto, desconto, regularização e explicação, o sentimento não foi de justiça tributária. Foi de susto. E esse tipo de susto fica.

O governo tentou reorganizar a narrativa depois, abriu negociação, ampliou descontos e passou a defender que a maioria da cidade não seria prejudicada. Mas a primeira impressão, em temas de bolso, costuma ser muito difícil de apagar. Mesmo quando a administração tem argumentos técnicos, a população mede o governo pelo boleto que chega, pelo trânsito que trava e pela obra que muda a rotina.

Há ainda o componente das obras herdadas. Zanatta tem entregado ou acelerado intervenções que começaram, foram planejadas ou ficaram pendentes no governo Luciano Almeida. Em alguns casos, a atual gestão afirma ter refeito projetos, corrigido falhas ou reorganizado etapas, como ocorreu em equipamentos educacionais e obras públicas. Isso faz parte da dinâmica administrativa: um governo começa, outro termina, e cada um tenta carimbar sua marca.

O risco está em transformar tudo em disputa de paternidade. Se a obra é entregue, o governo atual tenta assumir o mérito. Se deu problema antes, aponta a gestão anterior. Se precisou refazer, reforça a ideia de correção de rota. Mas o cidadão comum não acompanha processo administrativo, projeto executivo, aditivo, cronograma e contrato. Ele quer saber quando abre, quando funciona e se melhorou sua vida.

Por isso, o governo Zanatta parece apostar numa equação arriscada: suportar rejeição pontual em troca de entregas mais visíveis no futuro. A possível nova ligação viária envolvendo a região da SP-304, a Avenida Nossa Senhora do Carmo e a Avenida das Ondas entra nesse cenário. Se sair, será uma grande vitrine. Se sair perto da pré-campanha ou da campanha de reeleição, terá peso político evidente. Mas, até lá, o caminho também pode produzir desgaste ambiental, urbano, jurídico e comunitário.

A crise envolvendo o chefe de gabinete Luiz Antonio Tavolaro adiciona outra camada ao ambiente político. O Ministério Público questiona a permanência dele no cargo; a Justiça, neste momento, negou o afastamento liminar e manteve a discussão para o curso normal do processo. Juridicamente, portanto, não há condenação contra Zanatta nesse caso nem afastamento determinado. Politicamente, porém, o assunto continua vivo.

E aqui está uma diferença importante: uma coisa é vencer uma etapa judicial; outra é encerrar o desgaste público. A permanência de Tavolaro pode ter amparo jurídico neste momento, mas segue oferecendo munição para adversários, gerando dúvidas na opinião pública e reforçando a percepção de um governo que, quando decide, dificilmente recua.

Essa talvez seja a marca mais forte da gestão até agora: Zanatta governa como quem acredita que resultado futuro compensa desgaste presente. Em alguns casos, pode estar certo. Cidades precisam de obras impopulares, revisões tributárias, ajustes administrativos e decisões que não rendem aplauso imediato. Governar não é apenas seguir o humor das redes sociais.

Mas há uma fronteira entre firmeza e imposição. Quando a população sente que a decisão vem antes da escuta, o governo pode até vencer no papel, mas perde confiança no caminho. E confiança é um ativo difícil de reconstruir.

Piracicaba não vive um governo paralisado. Pelo contrário. Vive um governo que se movimenta, intervém, força temas e tenta reorganizar áreas sensíveis. A dúvida é se esse movimento será lembrado como coragem administrativa ou como atropelo político.

Até 2028, Zanatta tentará mostrar viadutos, escolas, obras, novas ligações viárias e números fiscais como prova de que o desgaste valeu a pena. A oposição tentará lembrar o IPTU, o trânsito, as crises jurídicas, as reclamações nas redes e a sensação de governo pouco aberto ao contraditório.

No fim, a eleição municipal não será julgada apenas pelas entregas. Será julgada também pela forma como elas foram conduzidas. E, nesse ponto, o governo Zanatta já parece ter escolhido seu caminho: impor agora, explicar depois e torcer para que, quando 2028 chegar, o resultado pese mais que o incômodo.

Júnior Cardoso, diretor-fundador do PIRANOT

Publicidade