Conteúdos misóginos da chamada ‘machosfera’ acumulam quase 4 bilhões de visualizações no YouTube, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos (MDH) de dezembro de 2024. Entre 2022 e 2025, o volume de vídeos produzidos nesse ecossistema cresceu 88%, conforme o mesmo relatório oficial. O fenômeno ganhou contorno pessoal em uma reportagem internacional publicada em julho de 2025, que relata o caso de um ex-ator de Hollywood que abandonou a carreira para se tornar influenciador do movimento.
A machosfera é herdeira do movimento ‘Red Pill’ e da manosfera, ecossistemas online que promovem hierarquias masculinas desde os anos 2010. No Brasil, a expansão se acelerou a partir de 2020 com a proliferação de canais no YouTube e no TikTok. O mecanismo central, descrito em estudo da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), é que o conteúdo ‘incentiva o domínio sobre a vida da parceira (roupas, amizades, finanças)’, criando comunidades fiéis que alimentam receita de publicidade e assinaturas pagas.
O tema chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em audiência realizada em março de 2023, a assessora do Ministério das Mulheres Ísis Menezes Táboas afirmou que ‘a misoginia reina’, denunciando a capacidade do movimento de transformar ódio em receita nas grandes plataformas digitais. O STF analisa a responsabilidade das plataformas pela disseminação de conteúdo misógino, com foco no modelo de recomendação algorítmica que amplifica e monetiza o ódio. Prazos para uma decisão final ainda não foram definidos.
O relatório do MDH intitulado ‘Machosfera’ lucra com ódio, aversão e desprezo às mulheres no YouTube detalha como o algoritmo da plataforma direciona usuários para conteúdos cada vez mais radicais. O documento estima que a receita publicitária gerada por esses vídeos no Brasil chegue a dezenas de milhões de reais por ano, embora o montante exato não tenha sido divulgado pelas plataformas. ‘O conteúdo misógino não é apenas tolerado, mas ativamente promovido pelo sistema de recomendação’, destaca o estudo da ALMG.
O caso do ex-ator, cuja identidade não foi confirmada publicamente, ilustra a transição de carreiras convencionais para a monetização do discurso de ódio. Segundo a reportagem internacional, o irmão de uma jornalista trocou Hollywood pela machosfera, tornando-se uma das figuras centrais do movimento no exterior. A reportagem aponta que influenciadores do nicho podem ganhar entre US$ 10 mil e US$ 50 mil por mês com assinaturas, superchats e cursos de ‘masculinidade’.
No Brasil, a machosfera conta com canais populares que ultrapassam 1 milhão de inscritos. Muitos utilizam discursos de ‘autoconhecimento masculino’ para atrair jovens, mas rapidamente escalam para ataques a direitos femininos. O MDH identificou pelo menos 50 canais brasileiros com mais de 100 mil inscritos dedicados ao conteúdo misógino. A ausência de regulação efetiva permite que esses criadores operem sem consequências, gerando receita a cada clique.
O STF deve julgar até o final de 2025 o marco civil da internet, que pode responsabilizar plataformas por conteúdos de terceiros. O Ministério das Mulheres apresentou parecer defendendo a moderação algorítmica como obrigação das empresas. Enquanto a decisão não sai, o debate segue fundamentado nas estimativas do MDH: quase 4 bilhões de visualizações que, a cada clique, geram receita para um ecossistema classificado como misógino pelo governo brasileiro.
Dois pontos permanecem sem resposta oficial: a identificação pública do influenciador citado pela imprensa internacional e o montante exato arrecadado por criadores brasileiros. A expectativa é que o STF, ao julgar a responsabilidade das plataformas, possa exigir maior transparência sobre os algoritmos e a receita gerada por esse tipo de conteúdo.











