Menos de três meses após conquistar o primeiro Oscar de Melhor Filme Internacional para o Brasil, o cineasta Walter Salles anunciou seu projeto seguinte: uma série documental de quatro episódios sobre a trajetória do ex-jogador Sócrates, com estreia prevista para outubro no Globoplay. A produção, batizada de “Sócrates Brasileiro”, foi confirmada durante a Rio2C (Rio Content Conference), realizada nesta segunda-feira (25), na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, e marca a primeira parceria do diretor com a TV Globo após o reconhecimento histórico de “Ainda Estou Aqui” pela Academia de Hollywood.
A escolha do tema reforça a vocação de Salles por narrativas que entrelaçam memória, identidade e política nacional. A série promete mergulhar na vida e no legado de Sócrates, o meio-campista apelidado de “Doutor” por sua formação em medicina, que transcendeu os gramados ao liderar a Democracia Corintiana — movimento de democratização interna no Corinthians que se tornou símbolo de resistência contra a ditadura militar brasileira no início dos anos 1980.
Conexão temática com o Oscar
O anúncio chega em momento particularmente significativo para o cinema brasileiro. Em março de 2026, “Ainda Estou Aqui” conquistou a estatueta de Melhor Filme Internacional, 27 anos após a indicação histórica de “Central do Brasil” (1998), também dirigido por Salles. O filme retrata a busca de Eunice Paiva pela verdade sobre o desaparecimento do marido, o deputado Rubens Paiva, durante a ditadura militar. A série sobre Sócrates abordará outro aspecto desse mesmo período histórico: a resistência através do esporte e da cultura.
Embora declarações diretas do diretor sobre a escolha do tema não tenham sido divulgadas no anúncio oficial feito na Rio2C, a convergência temática é evidente. Enquanto “Ainda Estou Aqui” tratou da memória familiar e da luta por justiça durante o regime autoritário, a produção sobre Sócrates explorará como atletas e torcedores se organizaram para afirmar valores democráticos em um período de censura e repressão. A Democracia Corintiana, movimento que permitiu aos jogadores participarem das decisões administrativas do clube, tornou-se referência mundial de gestão coletiva no futebol.
O legado do “Doutor”
Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira nasceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, em 1954. Formado em medicina pela Universidade de São Paulo, jogou por Botafogo-SP, Corinthians, Fiorentina (Itália), Flamengo e Santos. Pela seleção brasileira, disputou as Copas do Mundo de 1982 e 1986, sendo considerado um dos jogadores mais inteligentes e politicamente engajados da história do futebol. Faleceu em 2011, aos 57 anos, em decorrência de problemas intestinais.
A série documental promete explorar tanto a dimensão atlética quanto a intelectual do ex-jogador, que se tornou símbolo de uma geração. Os quatro episódios deverão abordar desde sua formação médica até os anos de ouro do Corinthians, passando pela experiência na Itália e seu legado como pensador do futebol. Detalhes sobre o formato narrativo, equipe de produção e eventuais entrevistas inéditas com contemporâneos ainda não foram divulgados oficialmente.
Documentarista experiente
Walter Salles não é novato no gênero documental. O diretor assinou obras como “Socorro Nobre” (1995), indicado ao Emmy, e “Jia” (2000), sobre o cineasta chinês Jia Zhangke. Em 2004, dirigiu “Diários de Motocicleta”, sobre a viagem de Che Guevara pela América Latina. A experiência com narrativas de não-ficção se soma à sua filmografia de ficção, que inclui “Terra Estrangeira” (1995), “Abril Despedaçado” (2001) e “Na Estrada” (2012), adaptação do romance de Jack Kerouac.
A parceria com a Globo representa novo capítulo na relação de Salles com a televisão brasileira. O diretor já havia colaborado com a emissora em projetos anteriores, mas o anúncio é o primeiro desde a consagração no Oscar. O Globoplay, plataforma de streaming da empresa, tem investido em produções documentais de autoria, como “O Nome da Morte” (2017) e “A Vida Invisível” (2019), este último indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2020.
Contexto do cinema brasileiro
O momento é de reconhecimento internacional inédito para o cinema nacional. A vitória de “Ainda Estou Aqui” abriu portas para produções brasileiras em festivais e premiações globais, criando expectativa sobre como o país sustentará essa presença nos próximos anos. A escolha de um tema como Sócrates — figura que combina apelo popular com densidade histórica — sugere estratégia de Salles para manter o diálogo com o público amplo sem abrir mão da reflexão política.
A estreia de “Sócrates Brasileiro” está prevista para o início de outubro no Globoplay. A produção requer autorização de herdeiros para uso de imagem do jogador e acesso a materiais de arquivo sobre sua trajetória. O PIRANOT acompanha a cobertura do cinema nacional e mantém acervo histórico sobre as produções brasileiras em premiações internacionais.











