Após confrontar dados do relatório Kantar BrandZ 2026 com levantamentos demográficos e indicadores de mercado, as 20 marcas de bebidas alcoólicas mais valiosas do mundo somaram US$ 194 bilhões em 2026 — uma queda de 7% em relação ao ano anterior. O recuo, divulgado nesta quarta-feira (27), reflete uma transformação profunda nos hábitos de consumo global, batizada por analistas de ‘grande moderação’, movimento de redução voluntária do consumo de álcool especialmente entre jovens e em mercados desenvolvidos.
O ranking é liderado pela chinesa Moutai, destilado premium do tipo baijiu, avaliada em US$ 73,6 bilhões. Na sequência aparecem Corona (US$ 16,5 bilhões) e Budweiser (US$ 14,3 bilhões). A diversidade geográfica do pódio ilustra um setor em transição: uma marca de destilado chinês, uma cerveja mexicana e uma cerveja americana de capital belga. O valor da líder Moutai é mais de quatro vezes superior ao da segunda colocada, demonstrando a força do mercado interno chinês e o posicionamento premium da marca asiática.
Avanço da moderação consciente
A principal transformação apontada pelo estudo é o avanço da chamada moderação consciente. Nos Estados Unidos, apenas 54% dos adultos declararam consumir álcool recentemente — o menor índice já registrado no país. Na Europa, o movimento segue padrão semelhante, com redução da frequência de consumo especialmente entre consumidores mais jovens.
Segundo o relatório da Kantar, os consumidores estão bebendo menos, mas não necessariamente abandonando o álcool. A moderação se expressa em frequência reduzida de consumo e em escolhas mais conscientes. Marcas premium e segmentos sem álcool ganham espaço como alternativas para um público que busca equilíbrio sem abandonar a categoria.
Brasil entre tendência global e crise local
O Brasil vive uma convergência inédita: ao mesmo tempo em que acompanha a tendência global de moderação, o país enfrenta os efeitos da crise sanitária do metanol em 2025, que resultou em mortes e intoxicações. O episódio abalou a confiança de consumidores e impactou bares, restaurantes e distribuidores em todo o território nacional.
Em outubro de 2025, pesquisa Datafolha indicou que 91% dos brasileiros apoiam a inclusão de alertas sobre riscos do álcool em rótulos de bebidas. Outros 69% defendem restrições à publicidade de álcool. Os números sinalizam uma mudança cultural na percepção de risco que transcende episódios pontuais de crise sanitária.
Coluna publicada por O Globo em fevereiro de 2026, sob o título ‘O mistério da cerveja: consumo despenca no Brasil, mas razões ainda são enigma’, já apontava retração no consumo de cerveja no país. O fenômeno agora se confirma como parte de um movimento global mais amplo de reconfiguração dos hábitos de consumo.
Posição das marcas brasileiras
O relatório da Kantar cita a presença de duas marcas brasileiras no ranking global de bebidas alcoólicas mais valiosas. A Ambev, controladora de marcas como Budweiser no Brasil, mantém posições relevantes no levantamento. A inclusão de marcas brasileiras no ranking internacional demonstra a força do mercado nacional de bebidas mesmo em cenário de queda de consumo.
Os valores específicos e a posição exata de cada marca brasileira não foram detalhados nas informações divulgadas pelo estudo. A diversidade geográfica e de portfólio que caracteriza o setor, segundo a Kantar, permite que marcas de diferentes origens mantenham relevância mesmo em contexto de transformação.
Perspectivas para o setor
Analistas de mercado monitoram o crescimento do segmento de bebidas sem álcool e cervejas premium como possível contraponto à queda no consumo tradicional. A indústria deve intensificar investimentos em diversificação de portfólio para atender o consumidor que busca moderação sem abandonar a categoria.
No Brasil, a expectativa é que os efeitos da crise do metanol continuem reverberando ao longo de 2026, com pressão por mais fiscalização e transparência na cadeia de produção. O debate sobre alertas em rótulos e restrições de publicidade deve avançar no Congresso Nacional, acompanhando tendência observada em outros mercados regulatórios.
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