Em março, o PIRANOT começou a divulgar seus colunistas. Primeiro vieram os anúncios editoriais nas redes sociais — publicações apresentando quem escreveria, quando, por que aceitou o convite. Depois, em abril, as colunas no ar. De lá para cá, foram nove nomes, 40 textos. O bimestre fechou.
E o que este bimestre revelou, coluna após coluna, foi que o debate público brasileiro está doente. Não por falta de ideias. Por excesso de um mecanismo que cinco dos nossos colunistas dissecaram com precisão cirúrgica: a força das redes sociais já não é ferramenta. É o campo de jogo inteiro.
A força que ninguém controla
Quem trabalha com comunicação cresceu ouvindo um ditado: “quem não é visto, não é lembrado.” Em 2026, esse ditado precisa de uma emenda: quem não gera reação — positiva ou negativa — desaparece. Não por decisão editorial. Por arquitetura de plataforma. O feed não pergunta se o engajamento veio do amor ou do ódio. Só mede intensidade. E intensidade, no Brasil de hoje, se confunde com agressão.
Este bimestre produziu a prova definitiva dessa tese em três atos.
O primeiro ato veio com Danilo Olegario, consultor de negócios e especialista em liderança, que dedicou três colunas ao que chamou de “Epidemia da distração”. Na estreia, diagnosticou “a geração que não vive, mas documenta tudo”. Na segunda, foi ao ponto: “estamos ficando burros ou só cansados de pensar?” E na terceira, o golpe final: “o silêncio virou insuportável.” A perda da capacidade de sustentar um raciocínio até o fim não é preguiça. É atrofia induzida. Cada notificação, cada scroll, cada título pensado para inflamar — tudo conspira contra o pensamento completo. E sem pensamento completo, política vira espetáculo.
O segundo ato veio com Dr. Sérgio Pacheco, vice-prefeito de Piracicaba, em “A Alquimia do ódio nas redes: destilando veneno ou néctar?”. A coluna que mais engajou em todo o bimestre. Ironia perfeita: o texto que denunciava o mecanismo viralizou pelo próprio mecanismo que denunciava. Pacheco escreveu: “Os xingamentos choveram publicamente, enquanto os elogios chegavam baixinho.” Citou Sócrates, Kierkegaard e o Evangelho para chegar a uma conclusão que não precisaria dessa erudição: o que é público nas redes se torna caricatura. O pai que lê insultos ao voltar do trabalho. A mãe que vê o filho rotulado. É veneno. E não é metáfora.
O terceiro ato veio com Clovis Vaz Filho, consultor político com mais de 35 anos de campanhas eleitorais, em “Entre Ecos e Espelhos”. Clovis foi à mitologia: Eco repete, Narciso se espelha. As redes sociais são um palco onde esses dois mitos operam simultaneamente — repetimos o que confirma nossas crenças e nos apaixonamos pela própria imagem refletida. “Assim como Narciso, há o risco de se apegar a uma versão idealizada de si mesmo.” A rede não é espaço de debate. É laboratório de autoafirmação.
Três colunistas. Três formações. Um diagnóstico: a arquitetura das plataformas não foi desenhada para o debate. Foi desenhada para o engajamento. E engajamento, no limite, se alimenta de ódio.
O termômetro que comprova
A prova viva desse diagnóstico veio dos próprios leitores do PIRANOT.
Quando a Professora Bebel estreou denunciando a escala 6×1 e o Plano Nacional de Educação, a caixa de comentários explodiu. Os termos variavam, mas a essência era uma só: “Nunca me enganou: o PIRANOT é de extrema-direita — fascista!” — ironicamente, o oposto do que o algoritmo da plataforma entregava para outro grupo. Sete dias depois, Alex Madureira, deputado estadual pelo PL, publicava “Formar jovens hoje é garantir o desenvolvimento do amanhã” e os mesmos perfis — ou vizinhos deles — comemoravam: “Agora sim, um patriota.” Até que Barjas Negri, ex-ministro de FHC, defendeu isenção de imposto de renda para trabalhadores formais na coluna seguinte — e o vento virou de novo: “Eu sabia: é de esquerda, do Lula e do PT.”
Em 48 horas, o mesmo portal foi chamado de fascista e de comunista. Pelos mesmos métodos: perfis sem foto, frases prontas, zero referência ao conteúdo das colunas. Nenhum desses comentaristas leu o que Pacheco escreveu sobre a alquimia do ódio, o que Danilo escreveu sobre a epidemia da distração, o que Clovis escreveu sobre Narciso. Porque se lessem, perceberiam que estavam reproduzindo exatamente o comportamento que os três colunistas descreveram. O diagnóstico virou profecia autorrealizável.
Isso não é um problema do PIRANOT. É um problema do ecossistema. O algoritmo não entrega contradição. Entrega confirmação. E quando alguém ousa furar a bolha publicando Bebel na segunda e Madureira na quarta, o sistema reage como se fosse um bug. Xinga. Rotula. E segue scrollando.
A construção que o algoritmo esconde
Mas este bimestre não produziu apenas diagnóstico. Produziu antídoto. E o dado mais duro é que o antídoto — as propostas concretas — teve fração do engajamento do veneno.
Vinicius Marchese, presidente licenciado do Confea, defendeu em duas colunas que desenvolvimento não nasce de improviso — nasce de preparo, organização e compromisso. Em sua coluna mais recente, mirou exatamente no mecanismo que Danilo descreveu: “Na internet, tudo parece fácil. Toda hora aparece alguém com solução pronta para os problemas das cidades. Tem sempre uma frase de efeito, uma opinião forte ou uma promessa rápida para assuntos que, na vida real, são muito mais difíceis do que parecem.” A frase que fecha o raciocínio deveria ser o subtítulo do bimestre: “A população não vive de discurso bonito. Vive a realidade do dia a dia.”
Barjas Negri entregou números. Em sua coluna sobre a Nota Fiscal Paulista, mostrou que o programa devolveu R$ 18,8 bilhões aos paulistas em 16 anos — R$ 279 milhões só em 2024 para entidades assistenciais. Dinheiro que virou comida em abrigo, remédio em santa casa, ração em ONG. Em edições anteriores, o ex-prefeito já havia trazido o alívio no Imposto de Renda para trabalhadores formais e os 24.821 empregos gerados em Piracicaba entre 2021 e 2025. Dados. Concretos. Verificáveis. E com fração do alcance de uma ofensa bem escrita.
Professora Bebel, na semana que passou, não fez discurso. Fez pesquisa. Trouxe o DIEESE e os sindicatos para dentro da coluna: 85,1% dos profissionais da educação relatam aumento de ritmo durante o expediente; 97,6% dos trabalhadores da saúde informam adoecimento mental ou emocional ligado ao trabalho; 60,3% já se afastaram por doença. “Os dados evidenciam com clareza algo que se agravou demasiadamente na gestão do governador Tarcísio de Freitas.” É um parágrafo que não gera trending topic. Mas gera Política — com P maiúsculo.
Dr. Sérgio Pacheco, na coluna que fechou o bimestre, fez a ponte entre o diagnóstico e a proposta. O caso Banco Master — bilhões em jogo, prisões, investigações da Polícia Federal — não é sobre a falha de um banco. É sobre a falha de um sistema inteiro. “Falhou quem deveria fiscalizar. Falhou quem deveria perguntar. Falhou quem preferiu não enxergar.” E a conta, como sempre, desce: “quem acorda cedo, trabalha, paga imposto e espera serviço público funcionando sabe que a conta dos erros de Brasília nunca fica em Brasília.”
Alex Madureira também fez sua transição do diagnóstico para a proposta. Em sua primeira coluna, defendeu R$ 500 mil para qualificação de mão de obra jovem em Piracicaba, articulando sindicato, Senai, Prefeitura e Governo do Estado. Sem discurso de campanha — com projeto de lei e de gestão. Na coluna mais recente, fez o elogio da conexão, mas com a ressalva que honra o debatedor honesto: “o uso excessivo da internet traz problemas. O excesso de exposição e a ansiedade que muitas vezes dominam o ambiente digital são questões que precisam ser discutidas com responsabilidade.” A mesma ferramenta que Pacheco diagnosticou como veneno, Madureira descreveu como ponte. E os dois estão certos. A ferramenta não é o problema. O problema é o que o algoritmo faz com ela.
E, no meio de toda essa tempestade de diagnósticos e propostas, dois colunistas fizeram algo essencial: lembraram que existe vida fora da tela.
Gustavo Alves de Oliveira documentou um híbrido raro entre raposa-do-campo e graxaim circulando em Piracicaba — um animal que não deveria existir, fruto de cruzamento improvável entre espécies de biomas diferentes. Em sua estreia, em abril, já havia apresentado o irerê, o tuiuiú e o savacu do Rio Piracicaba. Enquanto o Brasil se estranhava nas redes, a natureza produzia seu próprio experimento de convivência entre diferentes. Sem algoritmo. Sem curadoria. Só biologia.
Clovis Vaz Filho, na semana que passou, resgatou o fôlego histórico: o momento em que Piracicaba rompeu com o regime militar e construiu uma nova maioria democrática — com nomes, datas, articulações. Uma aula de como o poder se constrói com paciência, costura e memória. Não com viralização.
Fernanda Maestro seguiu com sua análise quinzenal de cinema e streaming, lembrando que cultura é economia real — trabalho para técnicos, roteiristas, produtores. Uma pauta de desenvolvimento que não cabe em 280 caracteres.
O que o bimestre entrega
O balanço é este: 40 colunas depois, o diagnóstico da força das redes sociais foi feito, comprovado e aprofundado por cinco vozes diferentes. Pacheco abriu com a alquimia do ódio. Danilo desdobrou em três atos sobre a epidemia da distração. Clovis deu a moldura mitológica. Madureira, na reta final, reconheceu a ambivalência da ferramenta. Marchese lembrou que a realidade não se resolve em frase de efeito. Cinco colunistas, um só objeto de análise, nenhuma combinação prévia.
E a prova de que o diagnóstico está correto veio dos próprios leitores — que, sem perceber, reproduziram nos comentários exatamente o comportamento que os colunistas descreviam. O algoritmo recompensa o conflito. A construção fica em segundo plano. Quem propõe solução compete em desvantagem com quem diagnostica o problema. Não por mérito. Por arquitetura.
A pergunta que fica não é se as redes sociais são boas ou ruins. Essa discussão já era. Os cinco colunistas demonstraram que a ferramenta é ambivalente — pode ser veneno ou ponte, a depender do uso. A pergunta é se, como sociedade, conseguiremos construir mecanismos — editoriais, algorítmicos, educacionais — que recompensem a construção tanto quanto recompensam o confronto. Porque, como este bimestre demonstrou, o confronto enche as métricas. Mas é a construção que enche a vida.
E se há uma imagem que resume o bimestre, ela veio de onde ninguém esperava. Um animal híbrido, que não deveria existir, fruto do cruzamento entre uma raposa-do-campo e um graxaim, flagrado por Gustavo Alves circulando em Piracicaba. A natureza fez, sem alarde, o que nós ainda não conseguimos fazer com todos os nossos algoritmos: juntar diferentes em um só corpo. E fazer funcionar.
Eu sou Júnior Cardoso. Volto daqui a duas semanas.
Esta coluna é publicada quinzenalmente, às segundas-feiras, por Júnior Cardoso, diretor-fundador e editor-chefe do PIRANOT.















