O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) que adie a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros até depois das eleições. Em ofício de 19 páginas enviado em 1º de julho, ele argumenta que a medida, se entrar em vigor durante a campanha, pode dar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) um trunfo político contra a oposição.
A tese apresentada pelo senador é menos econômica do que eleitoral. Flávio sustenta que a sobretaxa permitiria a Lula explorar o discurso de que o Brasil estaria sendo alvo de uma agressão externa e deslocaria o debate da economia interna para uma disputa diplomática com Washington. Na avaliação levada ao governo americano, isso ajudaria o presidente a mobilizar sua base e a enquadrar adversários como alinhados a interesses estrangeiros.
Além de pedir o adiamento das tarifas, Flávio propõe que os Estados Unidos substituam a cobrança ampla sobre produtos brasileiros por sanções direcionadas a autoridades do país. A mudança tentaria preservar o efeito político pretendido por Washington sem atingir exportadores brasileiros de forma generalizada.
Tarifa vira tema de campanha
A movimentação ocorre em meio à disputa sobre o impacto político do chamado tarifaço americano. O governo dos Estados Unidos anunciou a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros a partir de julho de 2026, em procedimento ligado à Seção 301, instrumento usado por Washington para investigar práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses americanos.
Para o governo brasileiro, a sobretaxa abre uma frente de desgaste econômico e diplomático. Para a oposição bolsonarista, porém, o risco é que a medida seja convertida por Lula em argumento eleitoral: a narrativa de que adversários internos teriam estimulado uma punição externa contra empresas e trabalhadores brasileiros.
É esse cálculo que Flávio leva ao USTR. Ao pedir a suspensão até depois da eleição, o senador tenta convencer a administração americana de que a tarifa, desenhada como pressão contra o Brasil, pode produzir o efeito inverso dentro do país e fortalecer justamente o governo que pretende atingir.
Senador participará de audiência nos EUA
Flávio Bolsonaro está entre os nomes confirmados para participar de audiência pública do USTR sobre o caso. A presença do senador dá caráter formal à ofensiva e coloca um integrante da família Bolsonaro diretamente no debate comercial conduzido pelo governo americano.
A carta também marca uma mudança de ênfase na estratégia bolsonarista. Depois de defender pressão dos Estados Unidos sobre autoridades brasileiras, Flávio agora tenta separar punições políticas de medidas comerciais que possam atingir empresas exportadoras e alimentar o discurso do governo Lula.
Em junho, o senador já havia feito um apelo para barrar a tarifa de 25%, mas a posição americana foi mantida. O novo documento busca recolocar o tema sob outro ângulo: não a defesa do comércio bilateral em si, mas o possível custo eleitoral da medida para a direita brasileira.
Exportadores aguardam definição
Na prática, a decisão continua nas mãos do USTR e do governo do presidente Donald Trump. Se a tarifa for mantida, exportadores brasileiros podem enfrentar perda de competitividade no mercado americano. Se o pedido de adiamento prosperar, a medida sai do centro imediato da campanha e dá fôlego temporário aos setores que vendem aos Estados Unidos.
O próximo passo é a audiência pública sobre a Seção 301, em que o USTR ouvirá participantes antes de definir o tratamento dado às tarifas. Até lá, a carta de Flávio Bolsonaro transforma uma disputa comercial em peça explícita da eleição brasileira.










