A taxa Selic recuou para 14,25% ao ano em junho, mas o juro médio cobrado do consumidor brasileiro permaneceu em 56,7% ao ano, segundo as Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas pelo Banco Central. O contraste expõe a distância entre a política monetária e o custo real do crédito para famílias e empresas.
A manutenção da taxa básica em patamar elevado — mesmo após o corte de 0,25 ponto percentual promovido pelo Copom em 17 de junho — não se traduziu em alívio no varejo financeiro. O spread bancário, a inadimplência das famílias em 4,7% (maior nível em 15 anos) e o risco de crédito compõem a diferença entre os 14,25% da Selic e os 56,7% pagos pelo consumidor.
O volume mensal de crédito no país gira em torno de R$ 600 bilhões, o que amplifica o impacto de qualquer variação nas taxas. O PIRANOT mostrou em 3 de julho que o juro médio ao consumidor supera 50% ao ano desde 2025, sustentado pelo spread bancário e pela inadimplência persistente.
O peso do risco no custo final
O Banco Central iniciou um ciclo de afrouxamento monetário em março de 2026, reduzindo a Selic de patamares superiores a 15% até os atuais 14,25%. No entanto, o repasse para as taxas de varejo é lento porque os bancos embutem no preço final a probabilidade de calote. Com 4,7% das operações em atraso, as instituições financeiras elevam suas margens para compensar perdas esperadas.
A inadimplência subiu de 4,6% em abril para 4,7% em maio, conforme os dados do BC. Esse movimento, ainda que pequeno, reforça a cautela dos credores. A agência Fitch avaliou em 14 de julho que os juros altos mantêm distante a recuperação da inadimplência no varejo, o que tende a perpetuar o ciclo de crédito caro.
A discussão opõe a equipe econômica do governo federal, que cobra cortes mais rápidos para estimular o PIB, e a diretoria do Banco Central, que prioriza o controle inflacionário. O IPCA desacelerou a 0,16% em junho, mas a inflação acumulada ainda impede um alívio mais agressivo na taxa básica.
Efeito sobre consumo e PIB
O crédito caro reduz o consumo das famílias, encarece bens financiados e pressiona o investimento empresarial. Projeções de instituições como XP e Itaú indicam que o PIB de 2025 deve fechar com alta de 2,3%, um crescimento moderado que reflete o freio imposto pelos juros elevados.
Setores que dependem de financiamento, como o comércio varejista e o mercado imobiliário, sentem o impacto de forma mais aguda. No interior paulista, incluindo cidades como Piracicaba, a manutenção das taxas em patamares elevados dificulta o acesso a crédito para capital de giro e aquisição de imóveis.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou os juros altos como o principal gargalo da economia. Em declaração no dia 4 de julho, Durigan afirmou que as taxas elevadas pressionam a dívida pública e travam o crescimento.
Pressão por cortes mais rápidos
A próxima reunião do Copom está prevista para setembro, e a principal dúvida do mercado é se o colegiado acelerará o ritmo de cortes. Até o momento, o Banco Central não sinalizou mudança na estratégia de afrouxamento gradual, mantendo a justificativa de que o ambiente externo incerto exige cautela.
Enquanto a Selic não cai de forma mais expressiva, o consumidor seguirá pagando taxas superiores a 50% ao ano no crédito rotativo e no cheque especial. A diferença entre a taxa básica e o juro final — mais de 40 pontos percentuais — permanece sem detalhamento oficial sobre o peso exato do spread e da inadimplência nessa composição.











