O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, marcou eleições legislativas para 28 de novembro de 2026, numa tentativa de retomar o voto parlamentar palestino depois de duas décadas de paralisia institucional. O decreto também prevê uma eleição presidencial no início de 2027, abrindo um calendário que recoloca no centro da política palestina a disputa sobre legitimidade, sucessão e controle territorial.
Abbas, de 90 anos, governa a Autoridade Palestina desde a eleição presidencial de 2005. Seu mandato constitucional era de quatro anos e expirou em 2009, mas ele permaneceu no poder por meio de decretos executivos. A nova convocação, por isso, tem peso maior do que uma simples marcação de data: ela testa a capacidade da liderança palestina de organizar uma votação reconhecida na Cisjordânia, em Gaza e entre eleitores de Jerusalém Oriental.
Calendário tenta destravar uma crise aberta desde 2006
A última eleição legislativa palestina ocorreu em 2006 e terminou com vitória do Hamas. No ano seguinte, o grupo assumiu o controle da Faixa de Gaza, enquanto o Fatah, partido de Abbas, manteve o comando da Autoridade Palestina na Cisjordânia. Desde então, o sistema político palestino ficou dividido em dois centros de poder, com administrações, forças de segurança e interesses distintos.
Essa divisão explica por que o anúncio de Abbas não encerra a dúvida principal: a votação será realizada de fato ou repetirá o impasse de 2021? Naquele ano, eleições gerais já haviam sido agendadas, mas Abbas cancelou o processo sob o argumento de que Israel impunha restrições à participação de palestinos em Jerusalém Oriental.
O novo decreto tenta reabrir essa porta. A eleição legislativa viria 20 anos depois da última renovação do Parlamento palestino; a presidencial, se ocorrer no início de 2027, seria a primeira desde a vitória de Abbas em 2005. Levantamentos de opinião divulgados no debate político palestino indicam rejeição de 80% ao presidente e descrença de 60% de que a eleição realmente vá acontecer, sinal de que o calendário nasce sob forte ceticismo público.
Gaza e Jerusalém Oriental concentram os maiores obstáculos
Para que a votação tenha alcance nacional, a Autoridade Palestina precisará fazer campanha, registrar candidaturas, supervisionar urnas e garantir fiscalização em territórios submetidos a controles diferentes. Na Cisjordânia, Abbas mantém a estrutura administrativa da Autoridade Palestina. Em Gaza, o Hamas controla o território desde 2007, num cenário agravado por guerra, destruição de infraestrutura e deslocamento de população.
Jerusalém Oriental é o outro ponto sensível. A participação de eleitores palestinos na cidade depende de autorização israelense e foi justamente esse entrave que serviu de base para o cancelamento de 2021. Sem uma solução para a votação na cidade, Abbas ficará diante do mesmo dilema: seguir com um pleito contestado por excluir Jerusalém Oriental ou suspender novamente o processo.
A disputa também tem dimensão interna. Uma eleição legislativa poderia reabrir a competição entre Fatah, Hamas e outras forças palestinas num momento em que Abbas enfrenta desgaste prolongado e questionamentos sobre a continuidade de seu governo por decreto. Ao mesmo tempo, organizar um pleito em territórios fragmentados exigirá acordo político mínimo, segurança para candidatos e eleitores e uma autoridade eleitoral capaz de operar nos dois lados da divisão palestina.
Votação mexe com a representação palestina no exterior
O calendário interessa além da política local. A legitimidade das instituições palestinas pesa nas negociações internacionais, na representação diplomática e no debate sobre a solução de dois Estados. Países que reconhecem ou mantêm relações com a Autoridade Palestina acompanham o processo porque uma liderança renovada pelo voto teria mais força política para negociar, enquanto novo adiamento reforçaria a percepção de paralisia institucional.
No Brasil, que mantém representação diplomática em Ramallah e defende historicamente a solução de dois Estados, a eventual retomada eleitoral tende a entrar no cálculo político sobre interlocução com os palestinos. O efeito prático, porém, dependerá menos do decreto em si e mais da capacidade de Abbas de transformar a data de 28 de novembro de 2026 em votação efetiva, com participação de Gaza e de Jerusalém Oriental.
O próximo marco do processo é a preparação da eleição legislativa marcada para 28 de novembro de 2026. A presidencial ficou prevista para o início de 2027, ainda sem dia definido. Até lá, a viabilidade do pleito será medida pela adesão política em Gaza, pelas condições de votação em Jerusalém Oriental e pela publicação de regras capazes de sustentar uma campanha competitiva nos territórios palestinos.











