A estreia do Canadá na Copa do Mundo de 2026 teve um retrato incômodo para a organização do torneio: enquanto o preço de ingressos para o jogo contra a Bósnia e Herzegovina subiu 127% nas 24 horas anteriores à partida, o BMO Field, em Toronto, registrou cadeiras vazias nesta sexta-feira (12).
A cena expõe uma tensão que tende a acompanhar a primeira Copa sediada por três países — Estados Unidos, Canadá e México: a diferença entre o mercado aquecido de ingressos, especialmente na revenda, e a ocupação real dos estádios. Para o torcedor, o dado mais relevante é simples: ingresso mais caro não significa, necessariamente, arquibancada cheia.
O jogo marcou a abertura da campanha canadense no Grupo B. A programação no BMO Field começou às 14h30, com cerimônia comandada por Alessia Cara, e a bola rolou às 16h, no horário de Brasília.
Alta no preço não explica sozinha os assentos vazios
A alta de 127% indica pressão de demanda nas horas finais antes da partida, mas não permite identificar, por si só, quanto custava o ingresso, qual setor encareceu mais nem onde estavam as cadeiras ociosas. Também não há percentual oficial de ocupação divulgado para o estádio.
Essa distinção importa porque a ociosidade pode aparecer por motivos diferentes: ingressos comprados e não usados, setores de hospitalidade, áreas corporativas, bloqueios operacionais ou bilhetes que ficam caros demais para parte da torcida na reta final. Sem a divisão por setor, atribuir os vazios apenas ao preço seria um salto além do que se sabe.
A contradição, porém, é politicamente sensível para a Fifa e para os organizadores locais. A Copa de 2026 será a maior da história, espalhada por três países e com logística mais cara para muitos torcedores. Em um torneio dessa escala, a percepção de arquibancadas vazias pesa tanto quanto a arrecadação: estádio com buracos visíveis transmite desorganização e enfraquece a atmosfera de jogos que deveriam ser vitrines do Mundial.
Canadá estreia pressionado em casa
Dentro de campo, a partida também carregava peso histórico. O Canadá chegou à estreia ainda em busca da primeira vitória em Copas do Mundo. A seleção havia disputado seis jogos em edições anteriores sem vencer, marca que aumentava a cobrança sobre uma geração que joga em casa e tenta transformar o Mundial em ponto de virada para o futebol do país.
O contexto esportivo tornava a presença do público ainda mais relevante. A estreia em Toronto era uma das principais vitrines canadenses no torneio e deveria funcionar como símbolo da expansão da Copa na América do Norte. As cadeiras vazias, portanto, chamam atenção justamente por aparecerem em um jogo de forte apelo local.
Fenômeno já apareceu em outras Copas
O problema não é novo em Mundiais. As Copas de 2014, 2018 e 2022 registraram relatos de assentos vazios mesmo em partidas com ingressos oficialmente esgotados. Em geral, a explicação passa por combinações de hospitalidade, patrocinadores, bilhetes corporativos e torcedores que compram entradas, mas não comparecem.
Na Copa de 2026, o tema ganha outra camada por causa do peso do mercado de revenda nos Estados Unidos e no Canadá. Antes mesmo da abertura, autoridades de Nova York e Nova Jersey já haviam iniciado investigação sobre a venda de ingressos do torneio, em meio a preocupações com transparência, taxas e acesso do público aos bilhetes.
Para quem pretende viajar para acompanhar a Copa, a lição prática é acompanhar preço e disponibilidade como indicadores separados. A revenda pode disparar nas horas finais sem que isso garanta estádio lotado; ao mesmo tempo, cadeiras vazias não significam necessariamente ingresso barato ou fácil de encontrar.
O próximo teste para os organizadores será mostrar, jogo a jogo, se a política de ingressos consegue aproximar demanda real, preços acessíveis e arquibancadas cheias — especialmente nas partidas de maior apelo local nos três países-sede.











