Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan, Paulinho da Viola, Marieta Severo, Emicida e Luisa Arraes assinam a campanha “Block no Tigrinho”, lançada nesta terça-feira (2) para cobrar regras mais duras à publicidade das apostas on-line no país. O manifesto, divulgado em vídeo, transforma um grupo de peso da música e do teatro em fiador público de uma pauta que voltou ao centro do debate em Brasília.
A mobilização chega quase um ano e quatro meses depois da entrada em vigor da regulamentação federal das bets, em 25 de fevereiro de 2025, e tenta abrir uma segunda frente: a da propaganda. O ponto em aberto é se a articulação será convertida em projeto de lei, representação a órgão regulador ou cobrança direta ao Palácio do Planalto.
O que pede o manifesto e quem assina
O eixo central da campanha é o endurecimento das regras de publicidade das bets, com foco em limitar a exposição do consumidor a peças associadas ao chamado “jogo do tigrinho” e a apostas esportivas. Até a publicação desta reportagem, o material divulgado não detalhava financiamento, produtora responsável pelo vídeo nem texto de eventual proposta legislativa apadrinhada pelo grupo.
O colunista Janio de Freitas defendeu a mobilização nesta quarta-feira (3) e associou o avanço das bets ao agravamento do endividamento das famílias, reforçando a pressão pública sobre o governo e o Congresso.
O mercado que os artistas miram
O alvo do manifesto é um setor que se tornou um dos maiores fenômenos digitais do país. Em julho de 2025, sites de apostas já figuravam como o segundo grupo de maior acesso no Brasil, atrás apenas do Google, conforme histórico da pauta acompanhado pelo PiraNOT.
Estudo da LCA Consultoria, encomendado em novembro de 2025 pelo IBJR — entidade ligada ao próprio setor —, estimou que as apostas representavam de 0,2% a 0,5% do consumo das famílias e de 0,1% a 0,3% do PIB. O mesmo levantamento sustentou que não havia, até aquele momento, crise sistêmica de endividamento associada às bets. A origem patronal do estudo é parte do contraditório e ajuda a dimensionar o peso político do debate aberto pelos artistas.
Governo e setor em silêncio
Até o fechamento desta edição, não havia manifestação oficial do governo federal, do Ministério da Fazenda — responsável pela regulação das apostas — ou de entidades representativas das casas de apostas sobre as demandas do “Block no Tigrinho”. Também não consta resposta sobre eventual diálogo prévio entre os artistas, parlamentares e o Executivo.
A ausência de contraponto institucional limita, por ora, o alcance regulatório imediato da campanha. O que está em jogo é a capacidade de oito nomes de alta densidade simbólica deslocarem o debate sobre bets do terreno econômico — onde o setor tem narrativa consolidada — para o terreno cultural e de saúde pública.
O que observar a partir de agora
Três pontos verificáveis devem medir o impacto real da mobilização nas próximas semanas: a apresentação, ou não, de projeto de lei encampado por parlamentares aliados aos artistas; uma eventual representação ao Conar ou ao Ministério da Fazenda pedindo restrição à publicidade; e a resposta formal do governo federal, que até agora optou pelo silêncio.
Permanecem em aberto, no material divulgado, a autoria operacional do vídeo, o financiamento da campanha e a estratégia política de longo prazo do grupo. Sem esses elementos, o “Block no Tigrinho” é, até aqui, um ato de pressão pública de peso — mas ainda sem tradução institucional.











