Uma injeção experimental chamada amivantamab levou ao desaparecimento completo de tumores em 15 pacientes com câncer de cabeça e pescoço resistente, segundo matérias publicadas pela imprensa nacional neste domingo (31). Os relatos, baseados em um estudo internacional ainda não publicado em periódico científico, reacenderam o debate sobre o acesso a terapias de alto custo no Brasil.
O dado central é promissor: os 15 pacientes citados apresentaram resposta completa após receber o medicamento por via injetável. Entretanto, a falta de informações oficiais — como a fase do ensaio clínico, o número total de participantes, a duração da resposta e o perfil de efeitos colaterais — impede qualquer conclusão sobre a aplicabilidade da droga em larga escala. O PIRANOT procurou a instituição responsável pela pesquisa, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
“Estudo internacional mostrou desaparecimento completo dos tumores em 15 pacientes com câncer de cabeça e pescoço resistente a tratamentos convencionais”, registrou a cobertura especializada sobre o amivantamab.
O contraponto é essencial para o paciente brasileiro: resposta completa em um grupo reduzido não significa confirmação de benefício amplo, nem autorização de uso. Tampouco há, nas informações disponíveis, detalhamento sobre critérios de seleção dos voluntários, duração da remissão ou previsão de submissão regulatória no país.
Um câncer comum e de difícil controle
O câncer de cabeça e pescoço é o quinto tipo mais comum no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), e responde por aproximadamente 900 mil novos casos anuais. Em estágios avançados ou após falha de tratamentos convencionais, as opções terapêuticas diminuem drasticamente, o que explica o alvoroço diante de qualquer sinal de eficácia.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Terapias-alvo e imunoterápicos, contudo, têm acesso restrito, conforme reconhece o próprio Ministério da Saúde.
“Cirurgia, radioterapia e quimioterapia”, lista o Ministério da Saúde ao tratar das modalidades disponíveis para o tratamento do câncer.
É nesse cenário que a promessa do amivantamab — um anticorpo biespecífico que atua em duas vias de sinalização tumoral — encontra a realidade do atendimento no país. Uma droga experimental pode entusiasmar a comunidade científica, mas precisa atravessar etapas de comprovação, registro, precificação e incorporação antes de chegar ao paciente.
Por que o paciente brasileiro deve manter a cautela
Para quem convive com câncer de cabeça e pescoço resistente, a diferença entre uma notícia animadora e uma alternativa real de tratamento é enorme. O resultado em 15 pacientes sugere um caminho de pesquisa promissor, mas está longe de representar uma solução imediata para a rede pública ou privada. Sem a fase do estudo, o tamanho total da amostra e o perfil clínico dos participantes, não é possível projetar a probabilidade de repetição do resultado em grupos maiores nem a segurança do tratamento a longo prazo.
O dilema se conecta a um problema histórico no país: a incorporação de tecnologias de alto custo. O PIRANOT já mostrou essa distância entre aprovação, acesso e escala na cobertura sobre a primeira caneta de semaglutida sintética aprovada no Brasil (leia aqui). Na ocasião, a autorização regulatória não significou acesso automático aos pacientes do SUS, e o mesmo desafio se aplica ao amivantamab caso venha a ser registrado.
Os próximos passos até virar opção de tratamento
Até o momento, o amivantamab permanece como droga experimental em estudo para câncer de cabeça e pescoço. Ainda são necessários a publicação oficial dos dados, a confirmação da fase do ensaio e a divulgação dos efeitos adversos observados. Depois disso, caberá à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) avaliar um eventual pedido de registro, à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) analisar a incorporação e ao Ministério da Saúde negociar preço — etapas que podem levar anos e que exigem evidências robustas de custo-efetividade.
Enquanto esses dados não se tornam públicos, a leitura mais segura é de que o resultado é relevante para a ciência, mas ainda distante de uma resposta prática para a maioria dos pacientes. O PIRANOT continuará acompanhando o caso.










