Em entrevista ao podcast Popcast, do jornal The New York Times, a cantora americana Olivia Rodrigo, 23, afirmou que as duras críticas que recebeu por usar um vestido estilo babydoll durante apresentação em Barcelona “mostram como normalizamos a pedofilia”. A declaração, divulgada em 27 de maio, reacendeu o debate sobre a infantilização e a sexualização da imagem feminina na indústria da música.
O episódio que gerou a polêmica ocorreu na semana passada, quando Rodrigo subiu ao palco do Spotify Billions Club Live, no Teatro Greco. O figurino – um vestido curto de estampa floral, com mangas bufantes e gola alta, combinado a um shortinho estilo bloomer – foi imediatamente associado nas redes sociais a uma estética “de criança pequena”. Internautas acusaram a artista de promover a infantofilia e a sexualização precoce, comparando a peça a roupas de boneca e pijamas infantis.
A resposta veio dois dias depois no Popcast. Visivelmente incomodada, Olivia Rodrigo não poupou palavras. “Isso tem me deixado muito chateada. Nem por mim. As pessoas podem dizer o que quiserem”, desabafou. Para ela, o incômodo maior está no julgamento seletivo: “Foi divertido, me senti legal e confortável assim. E isso não era inapropriado, mas eu completamente coberta em um vestido que as pessoas consideraram infantil, isso, sim, era inapropriado.”
A artista, dona de sucessos como “Vampire” e “Bad Idea Right?”, ressaltou a contradição que observa na própria carreira. Em outras ocasiões, usou tops brilhantes e shorts mínimos sem provocar a mesma reação negativa. “Se estivesse de sutiã e shortinho, ninguém falaria nada – talvez até elogiassem. Mas um vestido que me cobre toda e é fofo vira escândalo. Mostram como normalizamos a pedofilia”, criticou, em referência à tolerância social à hipersexualização das jovens em contraste com a condenação de vestimentas que evocam inocência.
O episódio se insere em uma longa discussão sobre a dupla moral que rege o corpo feminino no entretenimento. A fala de Rodrigo ecoa análises frequentes de que a sociedade aceita que meninas e adolescentes sejam expostas em figurinos sensuais, mas reage com escândalo quando uma mulher adulta escolhe um look lúdico. O babydoll, aliás, vive um revival entre celebridades – peça nascida na moda dos anos 1960 como camisola romântica, tem sido resgatado por nomes como Taylor Swift e Chappell Roan, sem que isso gerasse controvérsia semelhante.
A resposta da cantora rapidamente repercutiu na imprensa internacional, reacendendo o debate sobre escrutínio das roupas femininas. Para além do caso específico, a manifestação de Rodrigo foi interpretada como uma crítica à forma como a moda é usada para policiar corpos femininos, exigindo que mulheres transitem entre a sensualidade aceitável e a inocência punida.
O PIRANOT tem acompanhado a intersecção entre moda e discurso público. Em reportagem recente, o jornal destacou a vitória de Naomi Osaka em Roland Garros, na qual a tenista exibiu um look de estilista suíço que também gerou comentários (leia aqui).











