Flávio Bolsonaro apresentou nesta quinta-feira (16) o Brasil por Elas, pacote de 12 propostas voltadas às mulheres que combina inclusão digital, crédito, voucher, aplicativo e uma ferramenta de inteligência artificial. O lançamento, feito ao lado de Daniella Marques, entra no centro da estratégia do pré-candidato para tentar recompor sua relação com o eleitorado feminino depois da crise pública com Michelle Bolsonaro.
O plano promete ampliar o acesso de mulheres à internet, criar uma plataforma digital de atendimento e usar uma IA própria para acolhimento e orientação. Também prevê medidas de crédito e benefício por voucher, além de um aplicativo integrado às propostas. A campanha, porém, não apresentou uma estimativa pública de custo nem explicou qual seria a fonte de recursos para bancar a parte mais cara do pacote: conectar usuárias e sustentar a infraestrutura tecnológica.
A ausência de uma conta fechada dá peso político à principal contradição do anúncio. Daniella Marques, conselheira econômica de Flávio e nome citado como possível vice, aparece como fiadora de um programa com ambição social e tecnológica, mas também é associada ao discurso de ajuste fiscal e responsabilidade nas contas públicas. Sem desenho orçamentário, a promessa fica entre o aceno eleitoral e a pergunta concreta sobre execução.
Plano mira eleitorado feminino em momento sensível
O Brasil por Elas não surge isolado. Flávio tenta reorganizar a campanha após o afastamento público de Michelle Bolsonaro, que deixou o comando do PL Mulher e acusou o senador de desrespeito. Desde então, aliados passaram a defender uma chapa com uma mulher na vice e uma agenda mais direta para eleitoras, faixa considerada decisiva para a viabilidade da candidatura.
Daniella Marques ganhou espaço nesse movimento. Além de participar da formulação econômica, ela aparece no grupo de mulheres cotadas para a composição da chapa. Simone Marchetto e Clarissa Tércio também são mencionadas no entorno da campanha. A presença de um “trio feminino” na articulação busca sinalizar mudança de rota depois do desgaste com Michelle.
A crise familiar ainda reverbera no campo político. Ronaldo Caiado afirmou que a carta de Jair Bolsonaro expôs a fragilidade da campanha do filho, avaliação que reforçou a leitura de que Flávio precisa reconstruir pontes com segmentos onde enfrenta resistência. O pacote para mulheres funciona, nesse contexto, como vitrine programática e tentativa de reposicionamento.
Internet, IA e crédito exigem desenho técnico
A proposta de internet gratuita depende de uma equação que ainda não apareceu: quem paga, como as operadoras entram no modelo e qual seria o alcance real do benefício. A criação de uma plataforma digital de proteção à mulher e de uma assistente por IA também exige regras de segurança, proteção de dados e atendimento, especialmente porque o público-alvo pode envolver mulheres em situação de vulnerabilidade.
Outro eixo do pacote é econômico. O plano menciona crédito e voucher, pontos que ampliam o apelo social da proposta, mas também aumentam a necessidade de detalhamento fiscal. Sem indicar se as medidas dependeriam do Orçamento, de bancos públicos, de parcerias privadas ou de aprovação no Congresso, a campanha deixa em aberto a diferença entre promessa de campanha e política pública executável.
Daniella também tem usado uma imagem forte para explicar a ambição econômica do grupo: transformar a Caixa no “Itaú da periferia”. A frase resume a tentativa de aproximar serviços financeiros de baixa renda, mas reforça a cobrança por um projeto capaz de sair do slogan e chegar a instrumentos concretos de crédito, atendimento e inclusão digital.
Por ora, o Brasil por Elas entrega uma mensagem política clara: Flávio quer disputar o voto feminino com uma agenda de tecnologia, renda e proteção. O próximo teste será transformar as 12 propostas em números, regras de financiamento e modelo de execução que sustentem a promessa diante da campanha e do debate fiscal.











