A inadimplência média nas operações de crédito no Brasil subiu para 4,7% em maio de 2026 e atingiu o maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em março de 2011. A alta foi de 0,1 ponto percentual em relação a abril, quando o indicador estava em 4,6%.
O recorde mostra que o atraso no pagamento de empréstimos deixou de ser um problema concentrado em uma linha específica de crédito. O avanço aparece tanto entre famílias quanto entre empresas e ocorre em um ambiente de juros ainda elevados, renda apertada e crédito mais seletivo.
Entre as pessoas físicas, a inadimplência passou de 5,5% em abril para 5,6% em maio. Nas empresas, subiu de 3,1% para 3,24%, patamar próximo ao pico anterior de 3,27% registrado em novembro de 2017. No crédito livre, que reúne operações negociadas diretamente entre bancos e clientes, a taxa chegou a 6,2%.
O crédito direcionado, que inclui linhas como financiamento habitacional, crédito rural e operações com recursos do BNDES, também piorou: a inadimplência foi de 2,7% para 2,8% em um mês. Embora o percentual seja menor que o do crédito livre, a alta reforça a leitura de deterioração mais ampla da carteira.
Recorde chega com famílias mais endividadas
O dado do Banco Central coincide com outros sinais de pressão no orçamento doméstico. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo aponta que o endividamento das famílias chegou a 81,6%, também em nível recorde. No mercado de aluguéis, a inadimplência subiu para 3,22% em maio, segundo indicador da Superlógica.
Na prática, o consumidor que atrasa uma parcela enfrenta uma sequência conhecida: multa, juros, restrição cadastral e maior dificuldade para trocar dívidas caras por crédito mais barato. Quando esse movimento se espalha, bancos tendem a elevar o prêmio de risco embutido nas taxas e a restringir novas concessões a perfis considerados mais frágeis.
Esse efeito não atinge apenas quem já está negativado. A piora da inadimplência encarece o crédito para o conjunto dos tomadores, porque instituições financeiras recalculam perdas esperadas e passam a cobrar mais para compensar o risco. Empresas menores, que dependem de capital de giro, costumam sentir primeiro a redução de oferta.
Desenrola 2.0 entra em cena em mês de piora
Maio também marcou o lançamento do Desenrola 2.0, nova etapa do programa federal de renegociação de dívidas. O encontro entre o início do programa e o recorde de inadimplência aumenta a pressão por resultados, mas o indicador do mês ainda reflete dívidas já vencidas e uma dinâmica formada antes que renegociações tenham efeito estatístico relevante.
Programas desse tipo podem reduzir o estoque de contas em atraso quando conseguem combinar desconto, prazo e capacidade real de pagamento. O desafio é evitar que a renegociação apenas troque uma dívida impagável por outra, especialmente em famílias que já comprometem parte elevada da renda com parcelas, cartão, cheque especial e contas essenciais.
Mercado vê pressão localizada, mas acompanha a tendência
O Morgan Stanley avalia que o estresse da inadimplência ainda parece localizado e não configura risco sistêmico para o sistema financeiro. A leitura reduz o temor de uma crise bancária, mas não elimina o problema econômico: crédito mais caro e mais escasso freia consumo, investimento e renegociação de passivos.
O ponto central agora é a trajetória. Se a inadimplência continuar subindo, bancos devem manter critérios mais duros de aprovação e cobrar taxas maiores para compensar perdas. Se a renegociação ganhar escala e a renda das famílias reagir, o recorde de maio pode marcar o pico do ciclo. Por enquanto, o número do Banco Central mostra que o crédito brasileiro entrou no segundo semestre sob pressão.











