A Argentina registrou crescimento de 2,3% no Produto Interno Bruto no primeiro trimestre de 2026 — um dos primeiros sinais consistentes de recuperação econômica após a recessão que castigou o país em 2023 e 2024. O resultado foi divulgado nesta terça-feira (23) e chega em meio ao ajuste fiscal promovido pelo presidente Javier Milei, com implicações diretas para o comércio com o Brasil.
A Argentina é o segundo maior destino das exportações brasileiras no Mercosul. Durante os dois anos de crise severa, a contração da demanda do vizinho derrubou as vendas de autopeças, alimentos processados e máquinas agrícolas. Uma recuperação sustentada abre caminho para a retomada desse fluxo — mas os dados mensais de comércio exterior ainda não registram volumes consistentes de embarque para o mercado argentino.
O Instituto Nacional de Estadística y Censos (Indec) deve publicar nas próximas semanas o relatório oficial com a decomposição setorial do crescimento e a base exata de comparação — se a alta de 2,3% é sobre o trimestre imediatamente anterior ou sobre o primeiro trimestre de 2025. O dado completo vai permitir avaliar se o ritmo de expansão acelera ou perde força em relação ao final de 2025.
O choque Milei e a saída da recessão
Javier Milei assumiu a presidência em dezembro de 2023 com um dos programas de ajuste fiscal mais abruptos da história argentina recente: cortes profundos no gasto público, desregulamentação de setores estratégicos e uma política cambial restritiva que gerou queda severa do consumo no curto prazo. A inflação, que atingiu patamares historicamente elevados durante a crise, começou a recuar ao longo de 2025. O crescimento de 2,3% no primeiro trimestre de 2026 é o primeiro dado trimestral a sugerir que a economia voltou a expandir após o choque.
Em maio deste ano, o governo argentino aprovou também a extensão da jornada de trabalho para até 12 horas, medida apresentada como parte do pacote de flexibilização das relações laborais e que encontrou resistência de centrais sindicais. A combinação de reformas estruturais com os primeiros sinais de crescimento reforça o argumento do governo de que o ajuste está produzindo resultados — ainda que o debate sobre os custos sociais do processo permaneça aberto.
O que os exportadores brasileiros devem acompanhar
Para a indústria brasileira, o indicador decisivo não é apenas o PIB argentino, mas o volume de embarques mensais registrado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Até que esses números mostrem recuperação sustentada, qualquer projeção de retomada das vendas é preliminar. A publicação do relatório completo do Indec vai consolidar a série histórica e dar a comparação sequencial que falta — o passo necessário para calibrar com mais precisão as perspectivas do comércio bilateral nos próximos trimestres.










