A China colocou no cálculo político a possibilidade de um eventual governo Flávio Bolsonaro reduzir o ritmo da agenda de comércio com o Brasil fora do dólar. A preocupação em Pequim combina diplomacia, eleição e dinheiro: um Brasil mais alinhado a Donald Trump tende a ter menos espaço para avançar em mecanismos de pagamento que reforcem o uso do renminbi e reduzam a dependência da moeda americana.
O tema ganhou peso porque Trump trata a defesa do dólar como instrumento de poder econômico dos Estados Unidos e já ameaçou impor tarifas a países que busquem alternativas à moeda americana em transações internacionais. Flávio Bolsonaro visitou a Casa Branca em maio de 2026, gesto lido por interlocutores chineses como sinal de aproximação com a agenda trumpista.
Para o Brasil, a discussão não é apenas geopolítica. A China é o principal parceiro comercial do país, com peso decisivo nas exportações de soja, minério de ferro, petróleo e carnes. Quanto maior a dependência do dólar nas operações, maior a exposição de empresas brasileiras a spreads bancários, custos de hedge, prazos de liquidação e oscilações entre real, dólar e moeda do comprador.
Desdolarização entra na disputa por influência
A desdolarização avançou nos últimos anos como uma das vitrines econômicas dos Brics. A ideia é reduzir a vulnerabilidade de países emergentes ao sistema financeiro dominado pelos Estados Unidos, sem necessariamente eliminar o dólar do comércio global. No caso chinês, o objetivo é ampliar o uso internacional do renminbi e tornar seus acordos comerciais menos dependentes de bancos, liquidação e sanções vinculadas à moeda americana.
No comércio exterior da própria China, o uso do renminbi saiu de menos de 1% em 2010 para mais de 30% atualmente, segundo análise publicada pelo The Daily Star. O número ajuda a dimensionar a ambição chinesa, mas não mede, por si só, quanto do fluxo bilateral com o Brasil já é liquidado em moeda chinesa, em reais ou em dólar.
Essa diferença é central. Uma diretriz diplomática só vira impacto econômico quando aparece nos contratos de exportação, nas linhas de crédito, nas operações de câmbio, na liquidação bancária e nas estatísticas oficiais. Sem esse encadeamento, o risco é real no plano político, mas ainda não se traduz automaticamente em perda mensurável para empresas brasileiras.
Exportador pode pagar a conta se o dólar seguir no centro
Para exportadores brasileiros, especialmente do agronegócio e da mineração, a questão é operacional. Quando uma venda para a China passa pelo dólar, a empresa pode precisar proteger a operação contra variação cambial, negociar custos bancários mais altos e lidar com descasamentos entre o preço da mercadoria, a data de embarque e a liquidação financeira.
Um freio político à desdolarização tende a preservar esse modelo como padrão, em vez de acelerar alternativas em renminbi ou em moedas locais. Isso não significa, porém, que exista uma conta fechada sobre perdas para exportadores, importadores ou para o Tesouro. O Banco Central e as bases públicas de comércio exterior não oferecem, de forma consolidada para essa discussão, a fatia exata do comércio Brasil-China liquidada fora do dólar.
O efeito fiscal também é indireto. A balança comercial influencia entrada de divisas, câmbio, atividade exportadora e arrecadação, mas não há cifra pública que permita afirmar quanto uma eventual desaceleração da agenda custaria ao orçamento federal. O ponto mais concreto, neste momento, está nas empresas: quanto mais intermediários e moedas entram na operação, maior tende a ser o custo financeiro da transação.
Agenda econômica com Pequim segue em aberto
A preocupação chinesa surge apesar de a agenda econômica entre Brasília e Pequim continuar ativa. Em junho, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, levou à China uma rodada de reuniões com autoridades e com o Banco dos Brics, em movimento ligado a financiamento, comércio e integração financeira.
Esse tipo de aproximação mostra que a relação bilateral tem inércia própria e não depende apenas da retórica eleitoral brasileira. Bancos, tradings, compradores chineses, exportadores brasileiros e autoridades monetárias precisam adaptar instrumentos de pagamento antes que uma orientação diplomática altere, em escala relevante, o fluxo financeiro entre os dois países.
O próximo ponto concreto será observar se Brasil e China ampliam mecanismos de liquidação em moedas locais ou se a pressão americana mantém o dólar como eixo dominante das operações. Por ora, Pequim trata o alinhamento de Flávio Bolsonaro a Trump como risco político para uma agenda econômica que a China tenta transformar em padrão comercial.









