Ilan Goldfajn, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, discutiu mineração de terras raras com o Papa Leão XIV em um encontro privado no Vaticano. A conversa levou ao centro da diplomacia financeira um tema que deixou de ser apenas geológico: quem controla minerais críticos ganha influência sobre energia limpa, tecnologia, defesa, indústria e infraestrutura.
O encontro não significa apoio do Vaticano a um projeto específico de mineração. O peso político está em outro ponto: terras raras entraram na pauta de uma instituição multilateral que financia desenvolvimento na América Latina e de uma liderança religiosa que costuma associar decisões econômicas a impactos sociais e ambientais.
Para o Brasil, a conversa toca uma pressão concreta. O país tem reservas relevantes desses minerais e vê crescer o interesse por pesquisa e lavra, enquanto a Agência Nacional de Mineração lida com uma fila de pedidos que já ronda 3 mil processos ligados a terras raras. Sem equipe, orçamento e análise técnica suficientes, a corrida mineral pode virar gargalo administrativo antes de virar investimento produtivo.
Minerais críticos saem da indústria e entram na agenda política
Terras raras formam um grupo de minerais usado em ímãs, turbinas eólicas, carros elétricos, equipamentos eletrônicos, sistemas de energia e componentes industriais de alto valor. A demanda cresce porque a transição energética depende de cadeias produtivas intensivas em minerais, e poucos países dominam hoje as etapas de extração, separação e processamento.
É nesse ponto que a América Latina entra na disputa. A região reúne potencial mineral, necessidade de infraestrutura e dependência de capital de longo prazo. O BID, por sua vez, costuma atuar justamente no financiamento de projetos que combinam investimento privado, regras públicas e exigências de governança. Quando o presidente do banco leva o tema ao Vaticano, a discussão deixa de caber apenas em reuniões de mineradoras e passa a envolver desenvolvimento, desigualdade, ambiente e segurança econômica.
A mineração crítica também carrega uma tensão política evidente. Governos querem atrair capital e reduzir dependência externa em cadeias estratégicas, mas precisam demonstrar que novos projetos não reproduzirão passivos ambientais, conflitos com comunidades ou licenciamento frágil. Bancos multilaterais tendem a condicionar crédito a regras socioambientais, previsibilidade regulatória e capacidade de fiscalização.
Brasil tenta transformar reserva mineral em projeto financiável
O desafio brasileiro não é apenas provar que há minério no subsolo. Para que uma reserva se torne projeto, são necessários pesquisa mineral, licenciamento, energia, logística, segurança jurídica, compradores industriais e financiamento. Cada etapa exige análise pública e coordenação entre órgãos reguladores, investidores e governos.
A pressão sobre a ANM mostra o lado menos visível da corrida por terras raras. Quando pedidos se acumulam, o Estado precisa separar interesse especulativo de projeto viável, avaliar riscos ambientais e impedir que autorizações avancem sem base técnica. Para empresas, a fila aumenta incerteza; para contribuintes, amplia a demanda por fiscalização e por estrutura pública capaz de acompanhar a velocidade do mercado.
A agenda também conversa com a tentativa do governo de atrair capital para a transição energética. Instrumentos como o Eco Invest buscam mobilizar recursos para projetos verdes, mas minerais críticos só entram nesse circuito se conseguirem cumprir critérios de rastreabilidade, governança e impacto ambiental. Em outras palavras, dinheiro existe para bons projetos; o filtro tende a ser cada vez mais rigoroso.
Conversa reforça cobrança por regras antes do dinheiro
A reunião entre Goldfajn e Leão XIV não altera, por si só, licenças, autorizações ou investimentos no Brasil. Ela sinaliza que a mineração crítica passou a ocupar um espaço mais amplo, no qual financiamento internacional, responsabilidade ambiental e estratégia industrial caminham juntos.
A consequência prática é que projetos de terras raras terão de disputar capital em um ambiente mais exigente. Para avançar, precisarão combinar viabilidade econômica, licenciamento robusto, fiscalização pública e garantias de que a corrida por minerais da transição energética não criará novos passivos ambientais.









