O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu uma frente direta de negociação com a União Europeia para tentar reverter, adiar ou reduzir o alcance do veto à carne brasileira previsto para entrar em vigor em 3 de setembro.
A conversa ocorreu na terça-feira (16), durante a cúpula do G7, em reunião com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu. O governo brasileiro afirma que os três concordaram em buscar uma solução para as divergências comerciais que envolvem requisitos sanitários e fitossanitários da carne e restrições ao aço.
O ponto central para o agronegócio é o prazo. A restrição europeia foi formalizada em junho e, se nada mudar, passa a valer em setembro. A medida atinge um setor que aumentou fortemente sua presença externa nos últimos anos: as exportações brasileiras de carne bovina cresceram cerca de 150% em uma década, o que ampliou a sensibilidade da cadeia a barreiras comerciais em mercados de maior valor.
Para tentar destravar o impasse, Brasil e União Europeia criaram um canal permanente entre o Itamaraty e a Comissão Europeia. A função desse mecanismo será concentrar a discussão técnica sobre as exigências europeias e apresentar respostas brasileiras antes da entrada em vigor da medida.
Veto pressiona exportadores e frigoríficos brasileiros
A dimensão financeira do problema ainda é tratada como estimativa, mas contratos sob risco foram calculados em torno de US$ 2 bilhões por agentes de mercado. O número não representa perda fechada: indica a exposição comercial de empresas brasileiras caso a União Europeia mantenha a restrição sem ajustes até setembro.
A reação apareceu também na Bolsa. Ações de frigoríficos brasileiros fecharam em queda em meio à incerteza sobre o alcance do veto e sobre a capacidade do governo de negociar uma saída a tempo. JBS recuou 3,42%, Marfrig caiu 2,54% e Minerva perdeu 2,17%.
O impacto potencial vai além das empresas listadas. Uma barreira sobre a carne brasileira atinge pecuaristas, frigoríficos, transporte, portos e arrecadação em estados produtores. Mesmo quando o mercado europeu não é o maior destino em volume, ele pesa por exigência técnica, valor agregado e efeito de reputação sobre outros compradores.
Brasil tenta enquadrar restrição como questão técnica
A estratégia brasileira é tratar a decisão europeia como uma disputa solucionável por critérios técnicos, não como um fechamento político do mercado. O Planalto tenta demonstrar que o país pode responder às preocupações sanitárias e fitossanitárias sem que a União Europeia exclua a proteína brasileira da lista de fornecedores autorizados.
Do lado europeu, a discussão envolve padrões de controle sanitário, rastreabilidade e regras fitossanitárias. No mesmo pacote de conversas comerciais, Lula também levou à mesa queixas brasileiras sobre barreiras ao aço, outro tema sensível na relação econômica com o bloco.
A negociação ocorre em um momento de aumento das barreiras contra produtos brasileiros em diferentes mercados. Além da União Europeia, Estados Unidos e China também elevaram exigências ou restrições recentes sobre a cadeia da carne, o que reforça a pressão sobre o governo e o setor privado para proteger mercados estratégicos.
Próximo passo fica com Itamaraty e Comissão Europeia
O canal diplomático passa a ser o centro da negociação. Até 3 de setembro, o Brasil terá de apresentar respostas capazes de convencer a Comissão Europeia a rever o veto, modular sua aplicação ou abrir algum período de transição para contratos já firmados.
Sem mudança formal, a restrição entra em vigor na data prevista e mantém sob risco contratos bilionários da cadeia da carne. A margem de negociação existe, mas agora depende de uma resposta técnica aceita por Bruxelas antes que o prazo se esgote.










