segunda-feira, junho 8
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Júnior Cardoso
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Júnior Cardoso

Diretor, editor chefe e jornalista do PIRANOT. Começou a trabalhar em 2007, aos 14 anos, quando lançou seu primeiro blog...

A potência que não se faz ouvir: o peso de Piracicaba e a cadeira vazia em Brasília

· 6 min de leitura

Pontos-chave

  • Piracicaba produz 10,4% de todos os automóveis do Brasil — 208 mil veículos em 2025, segundo dados da coluna de Barjas Negri.
  • A cidade está há 12 anos sem eleger um deputado federal, lacuna escancarada na entrevista de Paulo Campos ao PIRANOT.
  • Clovis Vaz lembra que a autonomia regional de Piracicaba foi uma escolha estratégica dos anos 2000 — logo, a ausência política também pode ser corrigida.
  • O contraste da quinzena: uma potência industrial que pesa na economia nacional, mas não pesa na política nacional.

Há duas semanas, fechei esta coluna com uma pergunta sobre quem paga a conta quando os sistemas falham. Falei dos entregadores, dos servidores adoecidos, da distância entre o discurso e a vida real. Era uma quinzena sobre a ponta — sobre quem sustenta a engrenagem por baixo.

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Esta quinzena me obrigou a olhar para cima. Para a outra ponta da mesma corda: o lugar onde as decisões que chegam até nós são, na verdade, tomadas. E o que três vozes muito diferentes do PIRANOT disseram, sem combinar nada entre si, foi a coisa mais incômoda que li em semanas. Piracicaba é grande demais para o silêncio que escolheu em Brasília.

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Um em cada dez carros do Brasil — e nenhuma voz onde isso se decide

Comecemos pelo número, porque ele é grande e quase ninguém o repete em voz alta. Barjas Negri, ex-prefeito por doze anos, dedicou sua coluna ao Parque Automotivo da cidade e cravou um dado que deveria estar em todo discurso oficial: as montadoras e fornecedoras instaladas aqui produziram 208.073 automóveis em 2025, o que representa, nas palavras dele, “10,4% de toda a produção nacional de automóveis”. Em catorze anos, foram 2,45 milhões de veículos saídos de Piracicaba. Cerca de cinco mil empregos diretos.

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Pare um segundo nesse percentual. Um em cada dez carros fabricados no Brasil tem endereço de nascimento na nossa cidade. Quando o Congresso discute IPI de automóvel, política industrial, regra de importação, incentivo ao setor — está mexendo, sem saber, com a folha de pagamento de milhares de famílias piracicabanas. E é exatamente aí que a história fica estranha.

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Porque, na mesma quinzena, Paulo Campos veio a público anunciar pré-candidatura a deputado federal e, no caminho, escancarou um vazio que costumamos varrer para debaixo do tapete. Em entrevista ao PIRANOT, ele lembrou que a cidade está “há 12 anos sem conseguir eleger um deputado federal”. Não discuto aqui a candidatura dele — não é o meu papel, e a urna é de cada leitor. Discuto o fato que a candidatura revelou: uma potência industrial do tamanho da nossa não tem, há mais de uma década, quem leve o seu nome para a sala onde a política automotiva do país é escrita.

O que Barjas mediu em percentual de produção, Campos traduziu em ausência de poder. São o mesmo problema visto de dois andares diferentes. Lá embaixo, a fábrica gira e exporta peso econômico. Lá em cima, a cadeira está vazia. A cidade fabrica relevância nacional e não a converte em representação nacional.

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A boa notícia: essa ausência já foi uma escolha — e escolhas se refazem

Aqui entra a terceira voz, e ela muda o tom da conversa. Clovis Vaz, em “Quando Piracicaba escolheu liderar o próprio caminho”, contou de dentro uma decisão que hoje parece óbvia e na época não era: lá no começo dos anos 2000, quando São Paulo montava a Região Metropolitana de Campinas, Piracicaba decidiu não entrar. Clovis estava na sala — era chefe de gabinete do deputado Roberto Morais — e descreve a aposta: a cidade tinha “força econômica e industrial suficiente para liderar um projeto regional próprio”.

O tempo deu razão a quem apostou. Daquela recusa nasceram a ADRP, o Aglomerado Urbano e, anos depois, a própria Região Metropolitana de Piracicaba — 24 municípios, 1,5 milhão de habitantes. Repare no verbo que importa nessa história: escolheu. A autonomia regional de Piracicaba não caiu do céu. Foi construída com visão, articulação e gente disposta a brigar por ela contra o caminho mais fácil.

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E é isso que amarra a quinzena inteira para mim. Se a força regional foi uma construção deliberada, a ausência em Brasília também é. Doze anos sem deputado federal não é uma maldição geográfica nem falta de mérito — é falta de articulação, a mesma que sobrou quando o assunto era a metrópole e faltou quando o assunto é o Congresso. Barjas nos deu o tamanho do que produzimos. Campos, o tamanho do que não ocupamos. Clovis nos lembrou que já fomos capazes de escolher o caminho difícil e vencer. A pergunta que sobra é por que paramos de escolher.

O resto da quinzena

Danilo Olegário seguiu sua trilha sobre a epidemia da distração, dessa vez sobre a morte da atenção e a sensação de que ninguém mais termina nada — inclusive, talvez, projetos coletivos de cidade. Professora Bebel defendeu a escala 5×2 como questão de civilização, não de planilha: “mais tempo para descanso, lazer, cultura e todas as demais atividades às quais toda pessoa deve ter direito” — o avesso exato da pressão que vimos na ponta da quinzena passada. Gustavo Alves de Oliveira nos tirou da pressa e nos levou a Itaqueri da Serra, lembrando que história, natureza e tradição também são patrimônio da região. Andrey Moral, na sua coluna semanal de empregos, mostrou a outra face do parque industrial que o Barjas exaltou: o Sesi/Senai-SP abrindo banco de talentos com Piracicaba na lista — a indústria que pesa nos números também é a que contrata e qualifica gente da cidade. Alex Madureira defendeu que a Copa começa no campo de bairro, “longe dos holofotes” — outra forma de dizer que o que importa se constrói de baixo. E Fernanda Maestro, na curadoria “O que assistir na quinzena”, registrou a chegada de Toy Story 5 aos cinemas, porque a vida também é o que se vê na tela depois que o expediente acaba.

A cidade que se vê pela fechadura

A quinzena me deixou com uma certeza e uma pergunta — e desta vez as duas são quase pesadas demais. A certeza: Piracicaba não é uma cidade pequena pedindo atenção. É uma cidade grande que se comporta como pequena na hora de cobrar o que é seu. Quem faz um décimo dos carros do Brasil tem peso para sentar à mesa. Tem é faltado quem puxe a cadeira.

A pergunta é a mesma que já fiz aqui de outras formas, e que esta quinzena devolveu com números: de que adianta produzir tanto — automóveis, empregos, análise de primeira linha como a destas colunas — se na hora de decidir o IPI, a reforma, o orçamento federal, continuamos do lado de fora da porta? Clovis provou que já soubemos escolher o caminho difícil. Barjas mostrou que temos com o que negociar. Campos lembrou que a porta está fechada há doze anos. Falta combinar com Piracicaba que dá, sim, para abri-la de novo — desde que alguém decida parar de olhar pela fechadura.


Esta coluna é publicada quinzenalmente, às segundas-feiras, por Júnior Cardoso, diretor-fundador e editor-chefe do PIRANOT.

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Sobre o colunista

Júnior Cardoso

Diretor, editor chefe e jornalista do PIRANOT. Começou a trabalhar em 2007, aos 14 anos, quando lançou seu primeiro blog na internet. Em 2011, criou o PIRANOT e fez parte, por três anos, de um programa da extinta TV Beira Rio. Estudou jornalismo na UNIMEP e assessoria de imprensa no SENAC. Fez estágio na Câmara de Vereadores e teve passagens por duas rádios de Piracicaba.

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