Há duas semanas, fechei esta coluna com uma pergunta sobre quem paga a conta quando os sistemas falham. Falei dos entregadores, dos servidores adoecidos, da distância entre o discurso e a vida real. Era uma quinzena sobre a ponta — sobre quem sustenta a engrenagem por baixo.
Esta quinzena me obrigou a olhar para cima. Para a outra ponta da mesma corda: o lugar onde as decisões que chegam até nós são, na verdade, tomadas. E o que três vozes muito diferentes do PIRANOT disseram, sem combinar nada entre si, foi a coisa mais incômoda que li em semanas. Piracicaba é grande demais para o silêncio que escolheu em Brasília.
Um em cada dez carros do Brasil — e nenhuma voz onde isso se decide
Comecemos pelo número, porque ele é grande e quase ninguém o repete em voz alta. Barjas Negri, ex-prefeito por doze anos, dedicou sua coluna ao Parque Automotivo da cidade e cravou um dado que deveria estar em todo discurso oficial: as montadoras e fornecedoras instaladas aqui produziram 208.073 automóveis em 2025, o que representa, nas palavras dele, “10,4% de toda a produção nacional de automóveis”. Em catorze anos, foram 2,45 milhões de veículos saídos de Piracicaba. Cerca de cinco mil empregos diretos.
Pare um segundo nesse percentual. Um em cada dez carros fabricados no Brasil tem endereço de nascimento na nossa cidade. Quando o Congresso discute IPI de automóvel, política industrial, regra de importação, incentivo ao setor — está mexendo, sem saber, com a folha de pagamento de milhares de famílias piracicabanas. E é exatamente aí que a história fica estranha.
Porque, na mesma quinzena, Paulo Campos veio a público anunciar pré-candidatura a deputado federal e, no caminho, escancarou um vazio que costumamos varrer para debaixo do tapete. Em entrevista ao PIRANOT, ele lembrou que a cidade está “há 12 anos sem conseguir eleger um deputado federal”. Não discuto aqui a candidatura dele — não é o meu papel, e a urna é de cada leitor. Discuto o fato que a candidatura revelou: uma potência industrial do tamanho da nossa não tem, há mais de uma década, quem leve o seu nome para a sala onde a política automotiva do país é escrita.
O que Barjas mediu em percentual de produção, Campos traduziu em ausência de poder. São o mesmo problema visto de dois andares diferentes. Lá embaixo, a fábrica gira e exporta peso econômico. Lá em cima, a cadeira está vazia. A cidade fabrica relevância nacional e não a converte em representação nacional.
A boa notícia: essa ausência já foi uma escolha — e escolhas se refazem
Aqui entra a terceira voz, e ela muda o tom da conversa. Clovis Vaz, em “Quando Piracicaba escolheu liderar o próprio caminho”, contou de dentro uma decisão que hoje parece óbvia e na época não era: lá no começo dos anos 2000, quando São Paulo montava a Região Metropolitana de Campinas, Piracicaba decidiu não entrar. Clovis estava na sala — era chefe de gabinete do deputado Roberto Morais — e descreve a aposta: a cidade tinha “força econômica e industrial suficiente para liderar um projeto regional próprio”.
O tempo deu razão a quem apostou. Daquela recusa nasceram a ADRP, o Aglomerado Urbano e, anos depois, a própria Região Metropolitana de Piracicaba — 24 municípios, 1,5 milhão de habitantes. Repare no verbo que importa nessa história: escolheu. A autonomia regional de Piracicaba não caiu do céu. Foi construída com visão, articulação e gente disposta a brigar por ela contra o caminho mais fácil.
E é isso que amarra a quinzena inteira para mim. Se a força regional foi uma construção deliberada, a ausência em Brasília também é. Doze anos sem deputado federal não é uma maldição geográfica nem falta de mérito — é falta de articulação, a mesma que sobrou quando o assunto era a metrópole e faltou quando o assunto é o Congresso. Barjas nos deu o tamanho do que produzimos. Campos, o tamanho do que não ocupamos. Clovis nos lembrou que já fomos capazes de escolher o caminho difícil e vencer. A pergunta que sobra é por que paramos de escolher.
O resto da quinzena
Danilo Olegário seguiu sua trilha sobre a epidemia da distração, dessa vez sobre a morte da atenção e a sensação de que ninguém mais termina nada — inclusive, talvez, projetos coletivos de cidade. Professora Bebel defendeu a escala 5×2 como questão de civilização, não de planilha: “mais tempo para descanso, lazer, cultura e todas as demais atividades às quais toda pessoa deve ter direito” — o avesso exato da pressão que vimos na ponta da quinzena passada. Gustavo Alves de Oliveira nos tirou da pressa e nos levou a Itaqueri da Serra, lembrando que história, natureza e tradição também são patrimônio da região. Andrey Moral, na sua coluna semanal de empregos, mostrou a outra face do parque industrial que o Barjas exaltou: o Sesi/Senai-SP abrindo banco de talentos com Piracicaba na lista — a indústria que pesa nos números também é a que contrata e qualifica gente da cidade. Alex Madureira defendeu que a Copa começa no campo de bairro, “longe dos holofotes” — outra forma de dizer que o que importa se constrói de baixo. E Fernanda Maestro, na curadoria “O que assistir na quinzena”, registrou a chegada de Toy Story 5 aos cinemas, porque a vida também é o que se vê na tela depois que o expediente acaba.
A cidade que se vê pela fechadura
A quinzena me deixou com uma certeza e uma pergunta — e desta vez as duas são quase pesadas demais. A certeza: Piracicaba não é uma cidade pequena pedindo atenção. É uma cidade grande que se comporta como pequena na hora de cobrar o que é seu. Quem faz um décimo dos carros do Brasil tem peso para sentar à mesa. Tem é faltado quem puxe a cadeira.
A pergunta é a mesma que já fiz aqui de outras formas, e que esta quinzena devolveu com números: de que adianta produzir tanto — automóveis, empregos, análise de primeira linha como a destas colunas — se na hora de decidir o IPI, a reforma, o orçamento federal, continuamos do lado de fora da porta? Clovis provou que já soubemos escolher o caminho difícil. Barjas mostrou que temos com o que negociar. Campos lembrou que a porta está fechada há doze anos. Falta combinar com Piracicaba que dá, sim, para abri-la de novo — desde que alguém decida parar de olhar pela fechadura.
Esta coluna é publicada quinzenalmente, às segundas-feiras, por Júnior Cardoso, diretor-fundador e editor-chefe do PIRANOT.














