sábado, 18 de julho de 2026
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Estudo com 10 mil pessoas mostra que Natal e festas regionais superam a festa de momos em preferência na maioria dos estados; sertanejo lidera gosto musical com 26%

Pesquisa revela fim do estereótipo do Brasil como ‘país do Carnaval’

Estudo com 10 mil pessoas mostra que Natal e festas regionais superam a festa de momos em preferência na maioria dos estados; sertanejo lidera gosto musical com 26%

· 5 min de leitura · Atualizado em 31.05.2026 · NEXUS A.I. do PIRANOT e Júnior Cardoso

Pontos-chave

  • Levantamento ouviu 10 mil pessoas e aponta fragmentação da identidade cultural brasileira.
  • No Norte, Círio de Nazaré lidera preferências no Pará e Amapá, enquanto Nordeste mantém São João como festa principal.
  • Sul, Sudeste e Centro-Oeste elegem Natal e celebrações locais como preferidas, exceto Rio de Janeiro e Espírito Santo.
  • Sertanejo lidera preferência musical com 26%, seguido por gospel com 16%, enquanto samba aparece com apenas 9%.
  • Estudo foi apresentado na Rio2C 2026 e integra o livro Brasil no Espelho publicado pelo Valor Econômico.

Uma pesquisa inédita sobre valores e percepções da sociedade brasileira identificou uma mudança significativa no mapa festivo do país: o Carnaval deixou de ser a celebração preferida na maioria dos estados, cedendo espaço para o Natal e festas regionais como o São João e o Círio de Nazaré. O levantamento, apresentado durante a Rio2C 2026 e integrante do livro “Brasil no Espelho”, do pesquisador Felipe Nunes, ouviu aproximadamente 10 mil pessoas em todo o território nacional e aponta uma fragmentação da identidade cultural brasileira que desafia o estereótipo internacional do “país do Carnaval” construído ao longo de décadas.

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Os dados revelam um cenário de diversificação regional marcante. Na região Norte, o Círio de Nazaré lidera as preferências nos estados do Pará e Amapá, consolidando-se como uma das maiores manifestações religiosas do país. O Nordeste — com exceção do Rio Grande do Norte, onde o Carnaval mantém relevância — preserva o São João como celebração principal, com destaque para o ciclo junino que movimenta economias locais em Pernambuco, Paraíba e Bahia. Já nas regiões Sul, Sudeste — exceto Rio de Janeiro e Espírito Santo — e Centro-Oeste, o Natal e festas locais ganharam protagonismo nas preferências declaradas. Apenas no Rio de Janeiro e no Espírito Santo o Carnaval mantém a liderança como festa preferida da população.

“O Brasil não é mais o país do Carnaval como era visto externamente”, aponta o estudo, cujos resultados foram divulgados após o lançamento do livro em Recife no último dia 21. A afirmação sintetiza uma transformação que especialistas em cultura popular vêm observando há anos: a construção da identidade nacional em torno de uma única festa não corresponde mais à realidade plural do território brasileiro.

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Os dados sobre preferência musical reforçam essa transformação cultural. O sertanejo aparece como gênero preferido de 26% dos entrevistados, consolidando uma hegemonia que já orienta estratégias de programação das principais emissoras do país. A música gospel ocupa a segunda posição, com 16% das preferências, seguida pelo forró, com 10%, o samba, com 9%, e a MPB, com 8%. Os números indicam uma distância significativa entre o imaginário internacional sobre a música brasileira — frequentemente associado ao samba e à bossa nova — e os hábitos de consumo da população contemporânea.

Segundo dados oficiais do Ministério do Turismo, o Carnaval ainda gera impacto econômico expressivo: somente em Recife, a festa mobilizou 3,4 milhões de foliões e R$ 2,4 bilhões em receitas. Em Olinda, foram registrados 4 milhões de participantes e movimentação de R$ 400 milhões. Os números, no entanto, não se traduzem em preferência declarada nas pesquisas de opinião — o que sugere uma distinção importante entre participação efetiva em eventos de massa e identificação cultural dos cidadãos.

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Por que isso importa

A pesquisa revela que a identidade festiva brasileira é consideravelmente mais plural do que o estereótipo internacional sugere, com implicações diretas para políticas públicas de turismo e cultura. O Ministério da Cultura já sinalizou essa mudança de abordagem institucional. Em comunicado oficial, a pasta defendeu que o Carnaval deve ser tratado “não como um gasto sazonal, mas como um investimento em política pública contínua”, reconhecendo o potencial estratégico das festas populares para o desenvolvimento sustentável de territórios.

Para gestores públicos e investidores privados, os dados indicam que investimentos em festas regionais podem ter retorno equivalente ou superior ao Carnaval em determinadas regiões. O São João do Nordeste, por exemplo, movimenta cadeias produtivas locais em estados onde a festa de momos tem apelo limitado. O Círio de Nazaré, por sua vez, representa uma oportunidade de turismo religioso com capilaridade transnacional, atraindo fiéis de diversos países.

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A pesquisa também aponta para a necessidade de políticas culturais que reconheçam a diversidade regional brasileira, em vez de focar em uma identidade nacional unificada em torno de uma única manifestação. “A desigualdade concentra capital cultural em uma parcela pequena da população”, observou o estudo, indicando que o acesso a bens culturais permanece desigual e que as festas populares representam uma forma de democratização simbólica da cultura.

O que esperar agora

A pesquisa abre caminho para debates mais amplos sobre financiamento público de festas culturais e estratégias de turismo regional. Ainda não há série histórica comparativa que permita afirmar se essa é uma mudança recente ou se o estereótipo do “país do Carnaval” sempre esteve descolado da realidade vivida pela maioria da população. O PIRANOT mostrou anteriormente como a preferência pelo sertanejo já orienta estratégias de programação da TV Globo e de outras emissoras.

O relatório completo da pesquisa deve ser disponibilizado pelo Instituto Quaest nas próximas semanas, com análises detalhadas por região e segmentos demográficos. Especialistas do setor apontam que os dados podem influenciar tanto decisões de investimento privado em entretenimento quanto a formulação de políticas culturais nos próximos anos. A publicação integra um movimento mais amplo de mapeamento sistemático das preferências culturais brasileiras, algo que historicamente careceu de dados robustos e metodologia científica consistente.


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