A contratação de Rodrigo Bocardi pelo SBT, tratada como iminente nos corredores da televisão, encontrou um obstáculo que vai além de cifras ou duração de contrato. O jornalista exige autonomia editorial e uma equipe própria para tocar o ‘BocaTV’ — o telejornal que já comanda na internet. A divergência sobre esse ponto adia a assinatura e pode jogar a estreia para depois da Copa do Mundo de 2026.
As negociações, que ganharam corpo nas últimas semanas, miram uma faixa para Bocardi no fim de tarde, hoje ocupada pela nova versão do ‘Aqui Agora’. A emissora de Silvio Santos vê no jornalista uma peça para tentar enfrentar a Record, que consolidou o segundo lugar isolado em todo o Brasil. Em maio de 2025, a Record superou o SBT em todas as faixas horárias do Painel Nacional de Televisão (PNT), medido pelo Kantar Ibope, com picos de vantagem que chegaram a 62% em alguns períodos.
Desafio na audiência
O panorama do SBT não melhorou desde então. Programas vespertinos, como ‘Caverna Encantada’, não reagiram, e a grade segue patinando em terceiro lugar, atrás de Globo e Record. Na média diária, a distância para a vice-líder incomoda a direção da emissora, que aposta em um nome forte do jornalismo para virar o jogo. Bocardi, com 20 anos de Globo e passagem pelo ‘Bom Dia São Paulo’, traz o recall de um comunicador popular — e a promessa de um formato de notícias ao vivo que já testa nas redes.
O ‘BocaTV’ é um telejornal diário que Bocardi produz e apresenta no YouTube e plataformas de streaming. A ideia é levar o modelo para a TV aberta, com reportagens, comentários e interação. Para isso, porém, o jornalista condiciona o sim a ter controle sobre a linha editorial e uma equipe montada por ele — exigência que atrasa a formalização do vínculo, conforme apurado pela reportagem.
Da demissão na Globo à batalha judicial
A saída de Bocardi da Globo, em janeiro de 2025, foi traumática. A emissora alegou ‘descumprimento de normas éticas‘ para demiti-lo, mas nunca detalhou o caso. O jornalista classifica a dispensa como injusta e move um processo trabalhista contra a ex-casa. ‘Não queria sair assim, depois de tantos anos. Foi injusto’, declarou na época. A ação segue na Justiça, e a defesa de Bocardi busca não apenas reparação financeira, mas o reconhecimento de que a demissão foi desproporcional.
Enquanto o litígio corre, Bocardi se reinventou no digital. O ‘BocaTV’ nasceu em fevereiro de 2025 e, em pouco mais de um ano, conquistou audiência e anunciantes. A migração para a TV aberta representaria a volta ao grande público — e, para o SBT, um trunfo contra a forte programação local da Record, que se ancora em jornalísticos como o ‘Balanço Geral’.
Impasse na negociação
A resistência do SBT em ceder autonomia total não é novidade. A emissora historicamente impõe uma linha editorial centralizada, com pouca margem para projetos pessoais de apresentadores. No caso de Bocardi, a exigência envolve formar uma equipe de produtores, repórteres e editores contratados por ele, além de liberdade para pautar e dirigir o conteúdo. As conversas continuam, e a expectativa é que um contrato seja assinado até o começo de junho, com estreia planejada para setembro, após o mundial de futebol.
A data não é aleatória: o pós-Copa costuma ser um período de ajustes nas grades, e o SBT quer usar o evento para promover sua nova atração. Mas, se o impasse persistir, o projeto pode ser repensado. Enquanto isso, a Record mantém a dianteira e acaba de emplacar um feito raro: em 10 de maio de 2026, venceu o SBT em todas as praças aferidas pelo Kantar Ibope, inclusive na Grande São Paulo, onde a concorrente de Silvio Santos tinha mais tradição.
Procurados, SBT e Rodrigo Bocardi não comentaram oficialmente as negociações. Nos bastidores, porém, o tom é de que o martelo será batido em breve — desde que as condições para o ‘BocaTV’ caibam no modelo da emissora.
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