Uma disputa familiar ameaça a estrutura de controle da EssilorLuxottica, dona da Ray-Ban. Rocco Basilico, enteado do fundador Leonardo Del Vecchio, acionou a Justiça de Luxemburgo para anular uma reestruturação societária que concentra poder nas mãos de Leonardo Maria Del Vecchio, quarto filho do patriarca. O negócio, estimado em 10 bilhões de euros, foi aprovado em assembleia no dia 27 de abril, mas Basilico alega irregularidades.
A holding Delfin, sediada em Luxemburgo, administra a fortuna deixada por Del Vecchio, morto em 2022. Com 12,5% do capital votante, Basilico sustenta que o quórum exigido para a manobra era superior a 88%, e não os 75% utilizados na votação. Se o patamar mais elevado fosse respeitado, seus votos seriam suficientes para vetar a operação.
A ação judicial expõe fragilidades no pacto sucessório desenhado pelo fundador da Luxottica. A reestruturação aprovada altera a governança da Delfin e os direitos econômicos dos acionistas, com impacto direto sobre a distribuição de dividendos. Documentos do processo indicam que a assembleia violou regras estatutárias e configurou uma concentração indevida de poder.
O estopim da guerra familiar
A petição de Basilico pede a anulação de todas as decisões tomadas na assembleia. A principal delas é a transferência de participações de Luca e Paola Del Vecchio para Leonardo Maria, em um negócio de 10 bilhões de euros. Com a manobra, Leonardo Maria passaria a deter 37,5% da Delfin, tornando-se o maior acionista individual.
A reestruturação também redefine a política de dividendos da holding. Conforme os autos, 80% do lucro líquido anual da Delfin será destinado ao pagamento de proventos. O objetivo declarado é financiar a compra das fatias dos irmãos por Leonardo Maria. Basilico contesta a medida, alegando que ela reduz a capacidade de reinvestimento e beneficia desproporcionalmente um único herdeiro.
O litígio ameaça paralisar decisões estratégicas do grupo. A Delfin controla 32% da EssilorLuxottica, avaliada em mais de 80 bilhões de euros, dona de marcas como Ray-Ban e Oakley. Qualquer instabilidade na holding repercute diretamente na gestão da multinacional.
O que muda no controle da Delfin
Com a operação questionada, Leonardo Maria Del Vecchio consolida seu poder sobre o império óptico. Ele já ocupava cargo de direção na Delfin e agora assume uma fatia majoritária, reduzindo a participação dos demais herdeiros. A ação judicial argumenta que a votação ocorreu de forma irregular, sem respeitar os direitos dos acionistas minoritários.
A disputa revela o risco de concentração de poder em holdings familiares de capital fechado. A falta de mecanismos robustos de governança pode levar a impasses como o atual. A Delfin, peça-chave na estrutura do grupo, tem suas decisões agora sob escrutínio judicial.
A EssilorLuxottica, fruto da fusão entre a italiana Luxottica e a francesa Essilor, é líder global no setor óptico. A instabilidade na holding controladora pode afetar o valor de mercado da companhia e a confiança de investidores. O tribunal de Luxemburgo ainda não se manifestou sobre o caso.
Dividendos viram arma na disputa
A nova política de dividendos é um dos pontos mais sensíveis da ação. Ao destinar 80% do lucro líquido a proventos, a Delfin reduz sua capacidade de investimento e de reserva para contingências. Basilico sustenta que a medida foi desenhada para viabilizar a concentração de poder, e não para atender aos interesses de todos os acionistas.
A distribuição maciça de dividendos pode enfraquecer a holding no longo prazo. Com menos recursos para reinvestir, a Delfin pode perder flexibilidade estratégica, impactando a própria EssilorLuxottica. O litígio expõe fissuras profundas na família Del Vecchio e deve se arrastar por anos nos tribunais luxemburgueses.
Enquanto a batalha judicial não se resolve, a governança da gigante óptica permanece em xeque. A disputa bilionária mostra como heranças mal equacionadas podem ameaçar até os impérios mais sólidos.
❓ Perguntas frequentes
Quem são as partes na disputa pela holding Delfin?
De um lado, Rocco Basilico, enteado do fundador Leonardo Del Vecchio, que detém 12,5% da Delfin. Do outro, Leonardo Maria Del Vecchio, quarto filho, que busca concentrar 37,5% da holding. A ação corre na Justiça de Luxemburgo.
O que a assembleia de 27 de abril aprovou?
Aprovou a transferência de participações de Luca e Paola Del Vecchio para Leonardo Maria, por €10 bilhões, e uma nova política de dividendos que destina 80% do lucro líquido anual a proventos, visando financiar a compra.
Qual o impacto da disputa para a Ray-Ban?
A Delfin controla 32% da EssilorLuxottica, dona da Ray-Ban. A instabilidade na holding pode afetar a governança da multinacional e seu valor de mercado, além de paralisar decisões estratégicas do grupo.
? Leia também
- Brasil aprova fundo de R$ 5 bi para terras raras e acena a Trump em meio à disputa EUA-Chi
- Encontro Lula-Trump sem acordo formal aquece disputa eleitoral de 2026
- Disputa sobre veto em fusões de mineradoras expõe racha entre alas do governo Lula
- Coluna sobre Lula e Trump expõe disputa de narrativa bolsonarista











